O homem que flutuava

Quando nasceu, os médicos não conseguiam colocá-lo no bercinho da maternidade. Era o mesmo que tentar colocar uma bexiga no fundo de uma piscina.  Aos três anos não engatinhava, flutuava.  O bebê cresceu e tornou-se uma criança. O seu primeiro dia de aula foi um dia muito curioso. Alunos e funcionários da escola ficaram impressionados ao ver aquela criança flutuando de mãos dadas com sua mãe. A mãe, por sua vez, foi ter com o diretor do colégio a fim de dar explicações sobre o caso.  Contou que seu filho foi pesquisado, analisado, estudado, catalogado e classificado por todo tipo de profissional de tudo quanto era área e que ninguém sabia o que exatamente estava acontecendo. Não havia expliações. O diretor do colégio convocou uma reunião com os professores e pediu que eles tratassem o novo aluno como uma criança normal e que cada professor fizesse o mesmo pedido aos seus alunos. Não adiantou muito. O garoto virou motivo de chacota e recebeu alguns apelidos como “fantasma”, “pena”, “pluma”. A criança cresceu e se tornou um belo rapaz. O interesse da mídia pelo caso acabou. Todos na pequena aldeia já estavam costumados com o Homem que Flutua e o desinteresse ultrapassou as fronteiras do micro e chegou ás margens do macro: o mundo todo ja se habituara com o caso. Aos vinte e sete anos trabalhava como atendente em uma pequena conveniência. Era tímido, olhar vago, falava somente o necessário. Um dia, flutuando tranquilamente na fila de um caixa de supermercado foi surpreendido por uma cutucada em seu ombro: “Desculpe incomodar mas acabou a bateria do meu celular e queria saber que horas são. Não posso me atrasar para a aula”. Ao olhar para os olhos dela, seu rosto, seus lábios, seus cabelos ruivos preso em rabo de cavalo, algo surpreendente aconteceu: pela primeira vez em vinte e sete anos, o Homem que Flutuava finalmente colocou os pés no chão.

Anúncios

Odisseia

Era uma quinta-feira e eu me sentia triste e angustiado. Parei debaixo de uma mangueira, acendi meu último cigarro e comecei a refletir sobre as cagadas que eu cometi e nas cagadas que eu vinha cometendo e nas possíveis cagadas que eu ainda viria possivelmente a cometer. Então tive uma ideia.

Desci ao Reino dos Mortos, dei ao barqueiro Caronte R$ 1,25 (era tudo o que eu tinha no bolso) para que melevasse até Hades porque eu precisava muito falar com a alma do cego profeta Tirésias sobre o futoro da minha vida. Encontrei o deus dos mortos, disse que precisava falar com Tirésias, ele me mandou se sentar e aguardar um minutinho que a alma do profeta tava meio que ocupada. Deposi de bater um papo com a alma do cego e receber as devidas respostas que eu precisava, Hades prendeu Cérbero no canil e permitiu que eu voltasse á superfície. Fui até a praia, entrei num barquinho e remei até uma nau que estava ancorada há algumas milhas de distância da praia, pois precisava navegar de volta para casa. Mas eis que no caminho me perdi nas Rochas Ondulantes, fui parar em um canal e quase fui devorado por Cila e tragado por Caribdes mas consegui escapar são e salvo e antes do pôr-do-sol aportei na ilha de Hélio e como já estava anoitecendo aproveitei o pouco tempo do dia que me restava para dar farelo com sal ao pouco que sobrou do Gado do Sol. No dia seguinte de bai bai ao deus e levantei âncora mas daí percebi que havia perdido minha bússola porém a sorte não me abandonou e fui parar em outra ilha onde residia Éolo, o deus dos ventos, e expliquei a ele o problema e ele me deu um Norte então pude continuar minha jornada em águas calmas e tranquilas daí senti vontade de fazer xixi e fiz no mar e o problema é que mijei em cima das Sereias e elas disseram Ai que nojo! e me chamaram de porco nojento e acho que Posídon ficou sabendo da patifaria e ficou puto muito puto e o mar ficou bravo que dava medo e fui parar em outra ilha, pelado, sem eira nem beira aí foi que eu encontrei uma princesa chamada Nausícaa e ela me vestiu, cuidou de mim, e pude continuar meu rolê e como tava sem barco fui na caminhada mesmo. No meio do mato encontrei uma mansão em que ouvi dizer que lá morava uma mulherfeiticeira chamada Circe então Hermes apareceu assim do nada e e disse pra eu tomar cuidado porque ela a feiticeira tinha mania de transformar gente em bicho e eu disse fica sussegado que sou vacinado contra feitiço de qualquer mulher então entrei na mansão e a feiticeiramulher me atendeu e eu tava com fome e pedi um pacumê e ela me apontou o dedo pruns porquinhos que tavam com cara di dá dó e eu disse Não como carne tem verdurinha leguminho? aí ela me deu um prato de arroz feijão rúcula e alface bem temperadinho com limão e suco de maracujá que dispensei porque tô vacinado contra feitiço de mulher.Comi a beça, dei baibai dondoca e segui em frente e depois encontrei uma caverna e a caverna tava bem mais arrumada que meu quarto e pensei É aqui mesmo que eu vou tirar um cochilo então chegou o dono, um gigante de um olho só que portava uma bengala porque ele era cego como uma toupeira e o olho dele era de vidro e perguntou com uma voz de trovão Quem ta aí? e eu respondi Alguém! aí ele pediu o favor de pegar um vinho e enquanto eu levava o vinho pra ele perguntei seu nome e ele me disse que se chamava Polifemo e Polifemo me ofereceu um copo de vinho e eu disse Não muito obrigad, tem água? Tem, lá na cozinha e bebemos e conversamos e ele me contou que Ninguém o havia cegado com uma lança e eu disse Ô dó! e como já tava ficando tarde dei falôaí seu Polifemo e prossegui na minha caminhada pela ilha. Não muito lonje dali ouvi um putzputzputz e vozes e risadas e luzes piscando daí arei atrás de uma moita e e fiquei só vendo a balbúrdia e era uma rave com uma galera dançando e tinha um pórtico de entrada e umas bandeira com uma flor de lótus e embaixo os dizeres The Lotófagos Dance party e disse comigo mesmo Só por hoje não como flor de lótus porque nao tava a fim de me esquecer do meu objetivo. Continuei a caminhada e mais adiante me deparei com uma cerca e segui a cerca e parei em uma prteira com uma plaquinha que dizia Rancho do Eumeu. Abri a porteira, subi um caminho até uma choupana e me aproximei da porta da cabaninha e bati uma, bati duas, na terceira vez ouvi alguém lá de dentro perguntar Quem é? e eu respondi Um mendigomundrungo e quando a porta se abriu apareceu um velinho simpático que disse É você de novo Ulisses? Como você mudou! e eu aproveitei a deixa pra responder que sim, sou eu e que tava precisando de um barco pra voltar pra casa e se tinha algum pra me emprestar. Então ele disse sim, tá na mão e depois de um bom tempo navegando finalmente cheguei a Ítaca. Desci no porto de Fórcis, encontrei alguns camaradas, dei um e-aí-beleza e quando chego em casa encontro Antino e Eurímaco em frente da porta minha casa, por trás de uma barraquinha em que estavam vendendo meus pertences! então eu, com muita prudência e serenidade falei O que está acontecendo aqui? e Antino respondeu Estamos vendendo os pertences do dono da casa. Ele morreu faz um tempão e sua mulher ou namorada vai ficar com um de nós! Fiquei pasmo com a notícia. Quando pensei em abrir a boca pra falar umas asneiras Penélope saíu pela porta, desceu as escadas, deu a volta pela barraquinha, parou em frente a ela, Antino de um lado, Eur´maco de outro, me olhou de cima a baixo, depois virou para os dois e disse assim Acho que meu marido morreu e não volta mais pra casa. Só me caso com um de vocês com uma condição: vou propor um melhor de três no ping-pong, quem ganhar fica comigo. Os dois aceitaram e eu intervi dizendo Eu também topo o desafio! Mas Antimno retrucou dizendo Você!? Um mendigomundrungo? Jamais! ao que Penélope respondeu Eu permito! Sempre fui mulher solidária e não é hoje que vou ser diferente. Você mendigo, tá dentro do desafio! E Antino e Eurímaco ficaram putosderaiva mas a última palavra é da rainha e assim foi feito. Antino venceu de 2×1 de Eurímaco e depois foi a minha vez e dei um pau, venci de 3×0 fácilfácil não deu nem pro cheiro chéééé! Antino ficou dez vezes dez mil vezes zangado, jogou um banquinho em mim, mas acabou errando e foi embora de cabeça baixa resmungando e gesticulando e se juntou ao seu amigo Eurímaco e sumiram de vista. Então me aproximei de Penélope, e disse assim Sou eu, seu marido e rei. Ela não acreditou dizendo Se é mesmo meu marido e rei, diga-me qual o único segredo que há entre nós e eu disse Um dos pés da nossa cama é feito de um tronco de oliveira e jamais poderá ser removida. Ao que Penélope respondeu com estas palavras aladas Meu herói! mas antes de me abraçar e de me baijar disse Vá escovar esses dentes e tomar um banho que você tá fedendo!

Toda busca por si mesmo é sempre uma Odisséia.

Brilho Fosco

O ouro é um metal precioso que, quando trabalhado e polido, exalta beleza, desperta admiração e adquire novos valores. O mesmo sistema pode ser plicado às pessoas. Nascemos e crescemos e, durante a vida, trabalhamos para construir nossa identidadde e nossos valores. Chega um momento em que é preciso aplicar esses valores e apresentar a identidade – é hora de vender o peixe.

O marketing pessoal é um processo estratégico que possibilita um bom posicionamento do profissional agregando valor à imagem do indivíduo. Ora, mais do que estar bem vestido, além da beleza externa, é preciso que este indivíduo trabalhe a si mesmo como um todo, organizando seus pensamentos e controlando suas emoções, procurando elevar a sua auto estima até estar pronto e apto a vender o seu principal produto, ou seja, a sua própria pessoa.

Devemos frisar que a imagem externa não será analisada, mas sim imediatamente aceita pelo outro, considerando as duas principais características marcantes do mundo em que vivemos: o imediatismo e o consumismo. Essas características influem na formação e no desenvolvimento da personalidade de uma pessoa podendo até mesmo excluí-la do seu meio social e, consequentemente, levá-la a aceitar essa exclusão e desacreditar de seus valores, competências e habilidades podendo o mercado perder um possível profissional.

Portanto, em marketing pessoal, ainda que a aparência seja de suma importância, de nada valerá se o caráter, a imagem, a essência, não estiverem devidamente polidas e trabalhadas. Assim sendo, será apenas mais um metal entre outros, sem brilho, sem valor, não adquirindo a forma de um anel de noivado dentro de uma caixinha nas mãos de um homem apaixonado.

CATARSE

Um professor deixa-se consumir pela angústia do fracasso após diversas tentativas frustradas para publicar seu livro. Seu sofrimento aumenta ainda mais quando, na instituição em que trabalha, é acusado de pedofilia por uma professora. Vivendo na mais profunda melancolia, sozinho e quase a beira do suicídio, ele conhece Anabel, uma funcionária pública que acabou de entrar para trabalhar na secretaria da escola. Anabel se compara a um parafuso espanado, ou seja, não aperta nem afrouxa, sente-se inválida, apenas mais uma funcionariazinha do governo. Ela também atravessa um mar de angústia: depois de 5 anos de namoro, 2 anos de noivado, e faltando apenas uma semana para se casar, seu namorado confessa que tinha um caso com a  sua melhor amiga havia 3 anos e desiste do casamento. Anabel se interna nos estudos, abandona o curso superior de Sistemas de Informação e entra para o serviço público. Lá ela conhece Bruno, o professor fracassado. À medida que se conhecem, vão conhecendo um ao outro: ele se conhece por meio dela e ela se conhece por meio dele. Conhecendo a si próprio por meio de do outro.

Eles não sabem que se amam. Ela não diz a ele e vice versa.

ALIENS X ZOMBIES

Um meteoro contendo algumas bactérias alienígenas cai na no planeta Terra no meio do oceano pacífico. As bactérias se desenvolvem e se multiplicam rapidamente graças a ajuda da água. Toda a fauna marinha, o solo, e consequentemente os seres humanos são infectados por essa tal bactéria alienígena. Esse estranho organismo causa uma espécie de zumbinescência nos seres vivos, ou seja, todos os animais – incluindo os seres humanos – se transformam em zumbis, mordem uns aos outros e assim espalhando a misteriosa doença e  infectando o resto do planeta.

Algumas pessoas se juntam formando um grupo de extermínio dando início a uma guerra sem precedentes contra os zumbis. Quando tudo parecia estar perdido, uma nave extraterrestre pousa no planeta Terra. Dela saem um grupo de aliens e se juntam com os humanos  na luta contra os zumbis. Enquanto isso, um cientista maluco se junta a um cientista alien maluco, deixam suas diferenças acadêmicas de lado e juntos tentam descobrir um antídoto para a terrível catástrofe.

Alguns pontos a serem considerados para a produção de textos escritos

A fala é um atributo do homem. A língua, por sua vez, é um atributo da fala. Textos, orais ou escritos, constituem a base da comunicação humana. Então, o que é e para que serve escrever? Há concepções errôneas sobre o tema que sustentam a idéia de que escrever é tão somente treinar escritas de palavras soltas, textos descontextualizados, frases inventadas, enfim, uma porção de letras e frases e orações sem nenhum objetivo, para nada e para ninguém. Escrever é uma atividade caracterizada por diversas noções. Vejamos algumas delas:

Escrever é como falar, é um ato natural oriundo da interação entre dois seres humanos ou mais. Trocar informações, idéias, dizer algo a alguém sobre um determinado pretexto é uma atividade inerente á fala e a língua humana.

Considerando a interação entre os seres humanos, escrever é uma atividade cooperativa. É uma atividade que envolve o que está sendo dito (sentido) e a decodificação do que está sendo dito por meio de uma intenção (por que está sendo dito). Eis dificuldade de se escrever sem saber para quem.

A produção de texto como atividade cooperativa, escrever a outros e de forma interativa, constitui, portanto uma atividade contextualizada. Todo indivíduo está situado em algum lugar do tempo e do espaço e, consequentemente, sofre suas influências. Surgem daí os valores que irão determinar certas escolhas lingüísticas. Sendo assim, não se escreve da mesma maneira em contextos diferentes.

Tal como falar, escrever é uma atividade necessariamente textual. Todo falante organiza de um modo ou de outro seu repertório lexical, não fala ou escreve com frases e palavras soltas, justapostas aleatoriamente, o que pressupõe o fato de que, sejam eles orais ou escritos, só nos comunicamos por meio de textos.

Por trás de todo texto há um tema. Por tanto escrever é uma atividade tematicamente orientada. Ou seja, há uma idéia central, um tópico, um tema global pelo qual o texto vai seguindo, cada segmento vai-se orientando por esse tema, enfim, há sempre um ponto em vista.

Para se obter um determinado fim, para se cumprir um determinado objetivo, escrever é uma atividade intencionalmente definida. Como propõe estudos relacionados a teoria dos atos da fala, todo dizer é uma forma de fazer, de agir, de atuar sobre o meio em que vive.

Todo texto é marcado por particularidades que envolvem o falante. A língua não pode existir em função de si mesma, portanto escrever é uma atividade que envolve além de especificidades lingüísticas, outras pragmáticas.

Escrever é uma atividade que se manifesta em diferentes gêneros textuais. Nem todo texto segue o mesmo esquema de seqüenciação, não possui o mesmo conjunto de partes. Uma receita de bolo é bem diferente de uma bula de remédio por exemplo.

Escrever é uma atividade intertextual. Há sempre uma necessidade de retomar a outros textos mesmo que o autor não tenha consciência disso. Estamos sempre voltadas a outras “vozes”, a outras fontes, próximas ou remotas.

Por fim, a escrita é uma atividade em relação de interdependência com a leitura. Ler é a contraparte de escrever, ou melhor, ler é escrever duas vezes. Portanto é uma atividade que se completa com a outra. O que há é apenas a sensação de solidão quando estamos escrevendo ou lendo, mas existe sempre alguém do outro lado.

A construção do texto escrito envolve três fases:

  • Começa antes da tarefa de grafar;
  • Inclui essa tarefa de grafar;
  • E, finalmente, é uma atividade que ultrapassa o momento da primeira versão.

Enfim, é preciso levar em conta o conjunto de palavras que caracterizam um bom funcionamento e um reconhecimento por parte de quem lê e de quem escreve um texto. Destaco aqui algumas dessas propriedades do texto:

  • A coesão;
  • A coerência;
  • A informatividade;
  • E a intertextualidade.

 

Breve concepção sobre Linguística Textual, texto e contexto

A evolução dos estudos diretamente relacionados ao texto – análise transfrásica, gramáticas textuais e teorias do texto –, passou a constituir o principal interesse da Linguística Textual desde o final da década de setenta, época em que o foco desta ciência deixou de ser a competência textual dos falantes e passou a considerar a noção de textualidade como “um modo múltiplo de conexão ativado sempre que ocorrem eventos comunicativos” (BEAUGRANDE e DRESSLER, 1981).

Outras noções da Linguística Textual também devem ser consideradas, tais como o contexto e a interação entre autor, leitor e obra. Juntas, essas noções, além de serem básicas para a comunicação humana, também constituem objetos de estudo da Linguística Textual.

 

  1. 1.    Linguística Textual

 

Houve várias orientações no âmbito dos estudos linguísticos o que gerou diversas  propostas metodológicas. Essas propostas podem ser agrupadas em duas tendências: a Análise do Discurso, seguindo a linha francesa, e a Linguística Textual, com origem nos países germânicos, como Alemanha e Países Baixos, ou no Reino Unido, por exemplo.

Um dos temas específicos, dominantes na Análise do Discurso é a interação com outros seres humanos por meio da criação de sentidos, o que chamamos de construção textual. O ser situado em um determinado momento histórico, os sentidos que ele produz e as ideologias que ele subjaz a sua mensagem, o torna participante do ato comunicativo mediante a produção de textos e, como resultado, a produção de sentido sobre o que vai dizer e aonde quer chegar com determinado discurso dentro de um determinado contexto. Vamos esclarecer a seguir um pouco sobre a noção de texto e de contexto que permeiam os estudos relacionados à Lingüística Textual.

2.Texto

 

A palavra texto tem a sua origem no latim, textum, que significa tecido. Assim como nas roupas e nos tapetes, em que os fios do tecido não estão soltos, dispostos a esmo pelo espaço, há, portanto pontos que os ligam, formando um conjunto de fios entrelaçados que por sua vez formam a blusa ou o cachecol – o mesmo ocorre na produção de texto. Há nele elementos que se ligam e se conectam, dando forma ao produto [texto] conferindo-lhe corpo, estrutura, ou seja, um sentido. Seja um texto oral ou escrito, a noção de sentido só poderá ser determinada pelo processo constante de interação entre a tríade autor-texto-leitor. Portanto um texto pressupõe um leitor/ouvinte, caso contrário o objetivo primordial do texto – a transmissão de conhecimento e/ou estabelecer uma comunicação – não pode ser efetivada.

A produção textual não tem por finalidade única a transmissão de informações com o único objetivo de se estabelecer uma comunicação. Um texto bem redigido pode defender um ponto de vista, vender uma ideia, apresentar uma justificativa, ou seja, dependendo do contexto em que ele foi produzido, por quem, para quem, com qual finalidade, com o objetivo de atingir que tipo de leitor e com que tipo (gênero) de texto, este pode ser interpretado de diversas maneiras ou até mesmo assume um caráter incompreensível, não podendo ser interpretado por um leitor/ouvinte que não esteja de acordo com o contexto em que tal texto foi produzido, ou admite várias interpretações: tudo vai depender das intenções do autor/falante.

 

  1. 2.    Contexto

 

O contexto é um conjunto de condições externas a língua. Expressa o conhecimento de mundo e o repertório lexical do autor/falante que conduz no leitor/ouvinte as intenções do autor aos quais serão necessárias para a produção, para a recepção e para a interpretação do texto. É por meio do domínio e da organização das ideias advindas dos conhecimentos linguísticos, enciclopédicos e interacionais que as informações, as pretensões e as intenções são reveladas e interpretadas e também atendidas.

O conhecimento linguístico compreende o domínio lexical e gramatical do autor/falante no tocante a organização e estilização das suas ideias e conceitos. Quanto às vivências, as experiências vividas pelo falante, ao conhecimento geral que ele possui acerca do mundo, um tipo de thesaurus mental, sempre acompanhado de eventos espaço-temporais, é chamado conhecimento de mundo (ou conhecimento enciclopédico) e também pode – e deve – ser explorado pelo produtor do texto permitindo a construção de sentidos. Finalmente, a interação por meio da linguagem constitui o conhecimento interacional compreendido pela ilocução, ou seja, quais são os propósitos, os objetivos pretendidos pelo produtor do texto em uma determinada situação interacional, pelo conhecimento comunicacional onde se seleciona a variante linguística adequada a cada situação de interação adequando assim o gênero textual a situação comunicativa, pelo conhecimento metacomunicativo, a utilização de vários tipos de ações linguísticas configuradas no texto, e por último pelo conhecimento superestrutural ou conhecimento sobre gêneros textuais, que permite identificar textos que sejam adequados aos diversos momentos da vida social.

O conjunto desses conhecimentos constitui modelos episódicos ou frames. São resultados de experiências do dia a dia determinados espácio-temporalmente generalizando-se na medida em que várias experiências do mesmo tipo tornam-se comuns aos membros de uma mesma cultura ou de um determinado grupo social. Portanto o texto e o contexto são duas faces da mesma moeda..