Lúcia

Antes era um Deus nos acuda acordar às seis da manhã, escovar dente, tomar café, escovar dente de novo, trocar de roupa, pentear o cabelo, arrumar o material e beijinho da mamãe “Vai com Deus, filho. Boa aula” “Tchau mãe”.

No caminho pra escola, sonolento e de mau humor, vai murmurando a cada passo. “As duas primeiras aulas de Literatura com aquele professor chato! Aff! Ninguém merece. Odeio ler. Detesto Literatura. E as duas últimas de Matemática… Tomanocu! E ainda é segunda-feira. Será que a Lúcia vai hoje na escola? Se não fosse pela Lúcia eu nem iria nessa merda”.

Enquanto o professor explicava a matéria ele segurava a cabeça com a mão e o cotovelo apoiado na carteira. “O Romantismo…”, explicava o professor. Ôpa! Romantismo!? “Ah… Lúcia…”. (Suspiro.) Os olhinhos virando nas órbitas. Pensava em um relacionamento sério. Casamento talvez. Por que não? Imaginava como seria lindo os dois correndo de mãos dadas na praia, cabelos esvoaçando ao vento, o sol sorrindo, se pondo no horizonte. “Ah… Lúcia…”. Tudo é lindo quando se tem dezesseis anos. E o professor explicando a matéria. Vai cair na prova.

Lá no fundão da sala, quatro garotos. Parece que passaram o final de semana inteiro estudando o Manual das Piadas Infames e Brincadeiras Sem Graça Vl. 1. Bolinha de papel atirada por zarabatanas feitas com tubo de caneta. Direto na nuca d’O Aluno do Mês. “Ô prof…”. Se caguetar morre. É melhor ficar quieto. Daqui a pouco o intervalo…

Num outro canto da sala – sozinho, isolado, cabelos desgrenhados, calça preta, coturno, pulseira preta, crucifixo de metal, camiseta do The Cure na mochila (na hora da saída ele troca) – o Faz-De-Conta-Que-Sou-Vampiro. Sempre de cara feia, emburrado. A vida é uma merda. Que bosta.

Perto da porta as Irmãs Gêmeas. Não que sejam gêmeas geneticamente. Talvez tenham sido em uma outra vida. As amigas não se desgrudam. Aonde uma está a outra está também. O que uma faz, a outra faz também. Sempre cochichando, de risadinhas “Hihihihi!”. Siamesas.

E tem o Garoto Atleta. Sabe tudo sobre esportes, principalmente futebol. O braço direito do professor de Educação Física. Só não é muito bom em escrever o cabeçalho na prova. “Nome, número e série…!? Que porra é essa? Não tô entendendo”.

Enquanto isso ele conta os minutos para o intervalo. Meia página de lição. Prestou a atenção em tudo o que o professor disse. “Lúcia Lúcia Lúcia. A Escola Lúcia… A obra Lúcia…”.

Soa o sinal. Hora da Lúcia.

E hoje? A Lúcia se formou em Medicina. Virou doutora em Neurologia. Foi morar na Alemanha. E ele? Ele já está com seus trinta e poucos anos, desempregado e ainda mora com a mãe. Agora ele tá lá na escola pintando uma faixa com os dizeres “NÃO FECHEM MINHA ESCOLA” enquanto pensa na Lúcia.

 

 

 

 

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Antes “só” do que realmente acompanhado

Comecei a ver fantasmas depois de uma desilusão amorosa. Pode parecer um motivo idiota mas acreditem, eu amava aquela mulher. Estávamos em uma sorveteria em uma bela tarde de sábado e tudo estava indo ás mil maravilhas, eu muito contente, ela parecendo estar muito satisfeita e nós ali, tomando cada um uma taça de sorvete de creme com calda de chocolate. Então ela deu a notícia. “Não quero mais ficar com você”. De repente meu sorvete ficou sem sabor. Quis saber o por quê, a razão, o motivo. “Eu simplesmente não quero mais. Eu tentei. Juro que tentei me apaixonar por você, mas não consegui. Me desculpe. Podemos ser amigos se quiser”. O que se seguiu depois foi um surto de indignação, raiva, culpa, autopiedade, frustração. Havia quatro anos que estávamos juntos. Quatro anos! E não quatro dias ou quatro horas.

Depois de (com muito esforço) nos despedirmos, saí pelas ruas da cidade, ruminando a situação, sem ter um lugar específico para ir. Estava começando a me sentir exausto e resolvi parar e sentar em um banco da praça debaixo de uma árvore. Infelizmente todos os bancos que haviam debaixo das poucas árvores estavam ocupados. Olhei para a pequena igreja da praça pensei que seria uma boa ideia entrar, me sentar, descansar e tentar colocar meus pensamentos em ordem. Foi o que eu fiz. E foi nesse dia que eu vi, pela primeira vez na minha vida, um fantasma.

Havia apenas uma garota na igreja e notei que ela estava chorando. Como não conseguia me concentrar e acalmar meus pensamentos devido ao meu péssimo estado de espírito e também devido ao choro, me aproximei da garota e perguntei (me esforçando para manter a serenidade) se estava tudo bem. Não houve resposta, apenas mais choradeira. Me sentei ao lado dela e percebi que ela estava toda encharcada. “Ei, qual o seu nome, moça?” Se chamava Mariane. Seu rosto apresentava uma coloração esverdeada igual a catarro e seus lábios estavam roxos e não haviam nenhum brilho em seus olhos. “Precisa de ajuda, Mariane. Você está ensopada… e seus lábios… sua pele… Precisa de uma ajuda médica…”. Enquanto eu procurava um resquício de sinal com meu celular, ela olhou pra mim e disse que não precisava pois estava morta.

A notícia não me impressionou. Depois de eu ter vivido quatro anos com uma garota que “tentou se apaixonar” e passou esses mesmos quatro anos fingindo que sentia algo por mim, nada mais me impressionava. Naquele momento, tanto fazia se ela estivesse morta ou viva – eu já não conseguia mais discernir a diferença entre fantasia e realidade. “O que aconteceu com você? ” Mais tarde, com a experiência, notei que havia algumas coisas em comum entre os fantasmas: todos eles foram os heróis da sua própria história quando vivos, nenhum deles era o responsável pela sua morte e não eram para eles terem morrido pois havia muita coisa a ser feita. “A culpa foi da minha irmã mais velha. Não era para eu ter morrido. Eu sempre quis aprender a nadar… Meu sonho era ser nadadora profissional, entrar para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Mas minha irmã, sempre uma excelente nadadora, se recusava a me ensinar a nadar. Dizia que eu era incompetente, burra, uma imbecil e que nunca iria conseguir aprender a nadar e que eu iria morrer afogada logo na primeira tentativa e que a culpa seria dela!”. Deu uma pequena pausa, olhando para um ponto fixo no banco a sua frente. “Depois que mamãe arrumou um namorado as coisas pioraram. Era só eu e a Natália… mamãe passava a maior parte do tempo trabalhando e namorando… e a Natália… ela…” começou a chorar novamente “ela só me maltratava, me insultava, me recriminava e me humilhava! Mas na frente do casal, da mamãe e do seu namorado, ela era um amor. Um dia, o namorado da mamãe nos convidou a ir passar um fim de semana em sua chácara. Era um domingo, vinte e sete de agosto de sessenta e quatro”. Dou ou não dou os parabéns a ela? pensei comigo. Naquele sábado ela completava quarenta e nove anos de falecimento. “Eu tinha vinte e seis anos. Mamãe e o namorado foram para a cidade e eu e minha irmã fomos até o lago que ficava próximo da chácara. Mamãe não queria que eu ficasse sozinha e mandou que Natália me levasse junto até o lago. Estávamos somente eu e minha irmã. Então eu não aguentei. Aproveitei que a Natália tinha inventado de nadar até a outra margem do lago, fui até o deck e pulei na água. E me afoguei”. Ela abaixou a cabeça, olhou para as mãos juntas e começou a chorar. “E o que faz aqui na igreja? ”, perguntei, mais por curiosidade que por comiseração. “Eu sempre vinha aqui com minha mãe e com minha irmã. Não sei quanto tempo faz que eu morri e nem quanto tempo faz que eu venho nessa igreja”. Fica quieto, não abra a boca. Melhor que ela não saiba. “Posso fazer alguma coisa para ajudar? ” Ela sacudiu a cabeça de um lado a outro. “Bem, então é melhor eu ir embora. Vou deixar você em paz com suas recordações.” Não se preocupe, tudo vai acabar bem. Me levantei e fui embora.

Hoje, passados quinze anos de visões fantasmagóricas, prefiro mil vezes a companhia dos mortos do que a dos vivos. Os mortos não repreendem, não julgam, não recriminam. Eles apenas lamentam e se arrependem. Lamentam e se arrependem de não terem conseguido atingir um objetivo, de não terem conseguido terminar o que começaram.

Nunca havia pensado nela sem antes pesar em si mesmo. Seu egoísmo o enganava de tal maneira que o fazia acreditar que a conhecia quando na verdade tudo o que fazia era extrair dela o máximo de informações possíveis sobre si mesmo

Faz uma semana que me mudei para esta casa. Na terça-feira, por volta das cinco horas da tarde, ouvi alguém bater palmas no portão. Eu estava assistindo Despedida em Las Vegas e como detesto ser perturbado por quem quer que seja enquanto assisto a um filme, fiz de conta que não tinha ninguém em casa. Mas as palmas persistiram e eu tive que dar um pause e ir bufando de raiva ver quem era o desgraçado que me perturbava. Ao abrir a porta da sala me deparei com uma senhora de cabelos brancos, um rosto oval e marcado pelo tempo, de baixa estatura, meio gordinha. Seus olhos estavam arregalados, suas mãos tremiam e estava ofegante. Parecia bem nervosa. Me senti um pouco compadecido da pobre velhinha e na maior educação perguntei a ela se estava precisando de alguma coisa.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Não entendi. Caindo terra na sala? Como assim? Pedi para se acalmar e me explicar direitinho o que realmente estava acontecendo.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Comecei a compreender melhor o que estava acontecendo: a pobre coitada estava com a mente perturbada e sob tensão. Parece que estava tendo uma crise.
– Eu sinto muito, minha senhora, mas não posso ajudá-la.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Depois de um momento de silêncio, pedi mais uma vez desculpas, desejei-lhe uma boa tarde, dei as costas e voltei para casa. Não ouvi mais nada de palmas ou vozes. Olhei pela janela e a velhinha já havia ido embora. Continuei com o filme.
Na manhã seguinte fui á feira. Na barraca de condimentos encontrei com seo Agenor, a pessoa que me ajudou na mudança e o mais antigo morador do bairro. Entre conversas que variavam da qualidade dos produtos a situação econômica do país, acabamos por desembarcar a prosa nos moradores do bairro. Aproveitei a oportunidade para lhe contar o que havia acontecido na tarde do dia anterior e saber se ele conhecia a tal velhinha e se ela sofria realmente de algum problema mental ou seja lá o que for. Ao terminar a narrativa, percebi que seo Agenor ficou sério. Parecia um tanto assustado. Pediu para que eu repetisse o que aconteceu que, confesso, fiz com um pouco de ironia. Então Agenor empalideceu. Ficou imóvel como uma estátua.
– O senhor está bem? – Perguntei em tom de preocupação.
– Mas não pode ser… Pela descrição é a Dona Filomena… Ela faleceu vítima de infarto fulminante na noite de segunda-feira e foi enterrada ontem, por volta das cinco horas da tarde…

O homem que flutuava

Quando nasceu, os médicos não conseguiam colocá-lo no bercinho da maternidade. Era o mesmo que tentar colocar uma bexiga no fundo de uma piscina.  Aos três anos não engatinhava, flutuava.  O bebê cresceu e tornou-se uma criança. O seu primeiro dia de aula foi um dia muito curioso. Alunos e funcionários da escola ficaram impressionados ao ver aquela criança flutuando de mãos dadas com sua mãe. A mãe, por sua vez, foi ter com o diretor do colégio a fim de dar explicações sobre o caso.  Contou que seu filho foi pesquisado, analisado, estudado, catalogado e classificado por todo tipo de profissional de tudo quanto era área e que ninguém sabia o que exatamente estava acontecendo. Não havia expliações. O diretor do colégio convocou uma reunião com os professores e pediu que eles tratassem o novo aluno como uma criança normal e que cada professor fizesse o mesmo pedido aos seus alunos. Não adiantou muito. O garoto virou motivo de chacota e recebeu alguns apelidos como “fantasma”, “pena”, “pluma”. A criança cresceu e se tornou um belo rapaz. O interesse da mídia pelo caso acabou. Todos na pequena aldeia já estavam costumados com o Homem que Flutua e o desinteresse ultrapassou as fronteiras do micro e chegou ás margens do macro: o mundo todo ja se habituara com o caso. Aos vinte e sete anos trabalhava como atendente em uma pequena conveniência. Era tímido, olhar vago, falava somente o necessário. Um dia, flutuando tranquilamente na fila de um caixa de supermercado foi surpreendido por uma cutucada em seu ombro: “Desculpe incomodar mas acabou a bateria do meu celular e queria saber que horas são. Não posso me atrasar para a aula”. Ao olhar para os olhos dela, seu rosto, seus lábios, seus cabelos ruivos preso em rabo de cavalo, algo surpreendente aconteceu: pela primeira vez em vinte e sete anos, o Homem que Flutuava finalmente colocou os pés no chão.

Odisseia

Era uma quinta-feira e eu me sentia triste e angustiado. Parei debaixo de uma mangueira, acendi meu último cigarro e comecei a refletir sobre as cagadas que eu cometi e nas cagadas que eu vinha cometendo e nas possíveis cagadas que eu ainda viria possivelmente a cometer. Então tive uma ideia.

Desci ao Reino dos Mortos, dei ao barqueiro Caronte R$ 1,25 (era tudo o que eu tinha no bolso) para que melevasse até Hades porque eu precisava muito falar com a alma do cego profeta Tirésias sobre o futoro da minha vida. Encontrei o deus dos mortos, disse que precisava falar com Tirésias, ele me mandou se sentar e aguardar um minutinho que a alma do profeta tava meio que ocupada. Deposi de bater um papo com a alma do cego e receber as devidas respostas que eu precisava, Hades prendeu Cérbero no canil e permitiu que eu voltasse á superfície. Fui até a praia, entrei num barquinho e remei até uma nau que estava ancorada há algumas milhas de distância da praia, pois precisava navegar de volta para casa. Mas eis que no caminho me perdi nas Rochas Ondulantes, fui parar em um canal e quase fui devorado por Cila e tragado por Caribdes mas consegui escapar são e salvo e antes do pôr-do-sol aportei na ilha de Hélio e como já estava anoitecendo aproveitei o pouco tempo do dia que me restava para dar farelo com sal ao pouco que sobrou do Gado do Sol. No dia seguinte de bai bai ao deus e levantei âncora mas daí percebi que havia perdido minha bússola porém a sorte não me abandonou e fui parar em outra ilha onde residia Éolo, o deus dos ventos, e expliquei a ele o problema e ele me deu um Norte então pude continuar minha jornada em águas calmas e tranquilas daí senti vontade de fazer xixi e fiz no mar e o problema é que mijei em cima das Sereias e elas disseram Ai que nojo! e me chamaram de porco nojento e acho que Posídon ficou sabendo da patifaria e ficou puto muito puto e o mar ficou bravo que dava medo e fui parar em outra ilha, pelado, sem eira nem beira aí foi que eu encontrei uma princesa chamada Nausícaa e ela me vestiu, cuidou de mim, e pude continuar meu rolê e como tava sem barco fui na caminhada mesmo. No meio do mato encontrei uma mansão em que ouvi dizer que lá morava uma mulherfeiticeira chamada Circe então Hermes apareceu assim do nada e e disse pra eu tomar cuidado porque ela a feiticeira tinha mania de transformar gente em bicho e eu disse fica sussegado que sou vacinado contra feitiço de qualquer mulher então entrei na mansão e a feiticeiramulher me atendeu e eu tava com fome e pedi um pacumê e ela me apontou o dedo pruns porquinhos que tavam com cara di dá dó e eu disse Não como carne tem verdurinha leguminho? aí ela me deu um prato de arroz feijão rúcula e alface bem temperadinho com limão e suco de maracujá que dispensei porque tô vacinado contra feitiço de mulher.Comi a beça, dei baibai dondoca e segui em frente e depois encontrei uma caverna e a caverna tava bem mais arrumada que meu quarto e pensei É aqui mesmo que eu vou tirar um cochilo então chegou o dono, um gigante de um olho só que portava uma bengala porque ele era cego como uma toupeira e o olho dele era de vidro e perguntou com uma voz de trovão Quem ta aí? e eu respondi Alguém! aí ele pediu o favor de pegar um vinho e enquanto eu levava o vinho pra ele perguntei seu nome e ele me disse que se chamava Polifemo e Polifemo me ofereceu um copo de vinho e eu disse Não muito obrigad, tem água? Tem, lá na cozinha e bebemos e conversamos e ele me contou que Ninguém o havia cegado com uma lança e eu disse Ô dó! e como já tava ficando tarde dei falôaí seu Polifemo e prossegui na minha caminhada pela ilha. Não muito lonje dali ouvi um putzputzputz e vozes e risadas e luzes piscando daí arei atrás de uma moita e e fiquei só vendo a balbúrdia e era uma rave com uma galera dançando e tinha um pórtico de entrada e umas bandeira com uma flor de lótus e embaixo os dizeres The Lotófagos Dance party e disse comigo mesmo Só por hoje não como flor de lótus porque nao tava a fim de me esquecer do meu objetivo. Continuei a caminhada e mais adiante me deparei com uma cerca e segui a cerca e parei em uma prteira com uma plaquinha que dizia Rancho do Eumeu. Abri a porteira, subi um caminho até uma choupana e me aproximei da porta da cabaninha e bati uma, bati duas, na terceira vez ouvi alguém lá de dentro perguntar Quem é? e eu respondi Um mendigomundrungo e quando a porta se abriu apareceu um velinho simpático que disse É você de novo Ulisses? Como você mudou! e eu aproveitei a deixa pra responder que sim, sou eu e que tava precisando de um barco pra voltar pra casa e se tinha algum pra me emprestar. Então ele disse sim, tá na mão e depois de um bom tempo navegando finalmente cheguei a Ítaca. Desci no porto de Fórcis, encontrei alguns camaradas, dei um e-aí-beleza e quando chego em casa encontro Antino e Eurímaco em frente da porta minha casa, por trás de uma barraquinha em que estavam vendendo meus pertences! então eu, com muita prudência e serenidade falei O que está acontecendo aqui? e Antino respondeu Estamos vendendo os pertences do dono da casa. Ele morreu faz um tempão e sua mulher ou namorada vai ficar com um de nós! Fiquei pasmo com a notícia. Quando pensei em abrir a boca pra falar umas asneiras Penélope saíu pela porta, desceu as escadas, deu a volta pela barraquinha, parou em frente a ela, Antino de um lado, Eur´maco de outro, me olhou de cima a baixo, depois virou para os dois e disse assim Acho que meu marido morreu e não volta mais pra casa. Só me caso com um de vocês com uma condição: vou propor um melhor de três no ping-pong, quem ganhar fica comigo. Os dois aceitaram e eu intervi dizendo Eu também topo o desafio! Mas Antimno retrucou dizendo Você!? Um mendigomundrungo? Jamais! ao que Penélope respondeu Eu permito! Sempre fui mulher solidária e não é hoje que vou ser diferente. Você mendigo, tá dentro do desafio! E Antino e Eurímaco ficaram putosderaiva mas a última palavra é da rainha e assim foi feito. Antino venceu de 2×1 de Eurímaco e depois foi a minha vez e dei um pau, venci de 3×0 fácilfácil não deu nem pro cheiro chéééé! Antino ficou dez vezes dez mil vezes zangado, jogou um banquinho em mim, mas acabou errando e foi embora de cabeça baixa resmungando e gesticulando e se juntou ao seu amigo Eurímaco e sumiram de vista. Então me aproximei de Penélope, e disse assim Sou eu, seu marido e rei. Ela não acreditou dizendo Se é mesmo meu marido e rei, diga-me qual o único segredo que há entre nós e eu disse Um dos pés da nossa cama é feito de um tronco de oliveira e jamais poderá ser removida. Ao que Penélope respondeu com estas palavras aladas Meu herói! mas antes de me abraçar e de me baijar disse Vá escovar esses dentes e tomar um banho que você tá fedendo!

Toda busca por si mesmo é sempre uma Odisséia.