O serial killer tinha um hábito bem peculiar: Sempre comia uma cenoura crua no fim do expediente

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Cada um com o seu mundo

Volta lá pro seu mundinho!

(Anônimo)

O elevador é um ambiente um tanto quanto contstrangedor. Pessoas que nunca se viram na vida acabam se encontrando pela primeira vez dentro de um elevador. E durante alguns míseros minutos ficam com aquela cara de taxo, olhando pro teto, assoviando uma musiquinha ridícula, esfregando as palmas das mãos, lendo o aviso “Antes de entrar no elevador, verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar. Lei n° 9502 de 11 de março de 1997” (em certos edifícios o aviso chega a ser redundante levando em conta o fato de que a placa está dentro do elevador e não fora. Se a pessoa entrou e não caiu no poço, é claro que o elevador está parado no andar!) enfim, tentam disfarçar de alguma forma o seu constrangimento diante de desconhecidos.

Agora imaginem a seguinte cena: Entram quatro pessoas distintas num elevador. Um mauricinho vestindo terno e gravata, óculos, cabelo engomado, com pinta de executivo; um viciado em crack, cabelos desalinhados, olhos saltando das órbitas, roupas sujas e amassadas, tremendo, suando frio; um hippie com os dreads forrados de piolhos, mochila de alpinista, os pés imundos numa chinela de couro barata e com sua “asa” cheia de brincos e colares e pulseiras vindas das mais exóticas regiões do planeta; e, por fim, uma senhorinha crente, cabelos longos esbranquiçados, saia até os joelhos, bíblia debaixo do braço.

O elevador começa a funcionar. Os passageiros (pode chamar de “passageiro” as pessoas que andam de elevador?) começam a demonstrar sua “sem-gracice”. Mauricinho assoviando… Testemunha refletindo… Hippie conferindo sua mercadoria… E o “nóia” andando pra lá e pra cá, na fissura. Derepente o elevador para. Para assim do nada. Pane. O nóia começa a entrar em pânico. O hippie aproveita a ocasião para oferecer ao mauricinho uma pulseira com as cores da bandeira da Jamaica.

– Não, muito obrigado.

– Então leva esse brinco com pena de papagaio da Amazônia para a sua namorada.

– Não tenho namorada.

– Aposto que debaixo dessa roupa de galã você é um cara despojado. Leva aqui esse colar de dente de tubarão das Ilhas Marshall. É original. (Coça a cabeça.)

– Olha, eu já disse que não. Obrigado mas não vou levar nada.

 O jovem viciado começa a passar a mão nos cabelos. Está cada vez mais desesdperado e a crente, percebendo sua aflição, começa a pregar-lhe o Apocalipse. O hippie não para de encher o saco do executivinho. E o elevador volta a funcionar.

– Finalmente!

Agora pode se matar, infeliz.

– Aleluia!

Amém, senhora crente.

– Já era tempo!

Está atrazado executivo?

– Porra! Justo agora que eu tava quase vendendo um colar.

Melhor sorte da próxima vez, micróbio.

E assim o elevador chega ao térreo. As portas se abrem (ufa!) E cada um segue para seu mundo.

Ser mãe

Antes de qualquer coisa, quero deixar bem claro que, apesar do título, esse texto não tem nada ver com um depoimento sentimentalista em relação ao Dia das Mães ou algo parecido.

Eu a conheci na casa do primo dela. Não me encontrava nos meus melhores dias, não que eu menstrue ou passe por TPM, é que há muito eu vinha caminhando pelo deserto em busca da tão sonhada Terra Prometida e ainda não a havia encontrado e já estava de saco cheio de andar, andar e andar pelo deserto e não encontrar absolutamente nada. E ainda continuo a caminhar. Não encontrei a tal terra.

O procedimento para conhecê-la foi padrão. Igual ao que qualquer pessoa usa para conhecer outra. Perguntas triviais, clichês, coisas do tipo “Oi tudo bem prazer sou fulano e você, quial o seu nome? nossa! que nome bonito! trabalha? não? estuda? tambem não? ah! eu faço isso e aquilo e estudo logo ali, o que eu estudo? coisas, estudo coisas, namora? ah, solteira eu tambem, solteiro, mas ja fui casado, tem filhos? três? maravilha! eu tenho só um, isso, menina, ah! você tem três filhos homens, que maravilha!, que tal uma cervejinha? ah, não bebe, fuma? tambem não, que ótimo! melhor assim né, economiza uma grana, eu fumo e bebo, até demais e blábláblá.” E como manda o figurino, ao final da entrevista, troca de números de telefone.

Liguei pra ela na terça-feira. Marcamos um encontro. (Caros leitores. Peço desculpas pela falta de originalidade mas quando se trata de paixão, sexo, tesão, amor e coisas do gênero, é tudo chavão, clichê e lugares-comuns.) Nos encontramos num evento na sexta a noite. Ia rolar um filme de graça (eu como sempre sem grana) mas não aconteceu evento algum por causa de uma quase epidemia de gripe A, gripe suína, H1N1 e quantos nomes tiver essa tal de gripe e, por uma questão de prevenção, os organizadores acharam melhor evitar aglomeração de pessoas para não disseminar o vírus. Fomos para a minha casa.

Como não tenho habilitação e não tenho carro, caminhamos até a minha humilde residência que para mim era o meu cxastelo. Para você é só uma residência. Do centro da cidade até onde eu moro deve ter uns quatro, cinco quilômetros. Hoje penso que ela deve ter realmente gostado de mim, porque, para me acompanhar numa caminhada de cinco quilômetros… não é fácil. Ás vezes eu me odeio de ter que andar e andar e, se pudesse, me divorciaria de mim mesmo, no meio da caminhada.

Em casa teve beijos, abraços, conversas, mais beijos, mais abraços, café, cigarro (pra mim), depois cama e… Já sabem o resto. No dia seguinte, fui na padaria comprar pão. Ela não quis um pão com margarina e café (sem leite). Daí teve mais conversas e mais beijos e mais cama. E foi assim o dia todo. A noite perguntei a ela, apenas por curiosidade, qual era seu sonho, se ela tinha algum objetivo na vida e tal. Ela me respondeu que o maior sonho da vida dela, que o objetivo de vida dela era cuidar de seus filhos. Ser mãe é o grande sonho dela.

Durante a madrugada, depois de um foda gostoso ela vei com um papo estranho. Não sei que tem não sei que lá Lucas.

– Mas que Lucas?

– Nosso filho, ué!

 – Mas você não usa DIU?

– Uso, mas existe uma possibilidade de vazar. Não é cem por cento seguro.

Queria dizer que eu transei feito um cavalo. Modéstia a parte. Dias depois veio a confirmação.

– Estou grávida.

Ela tinha tanta vontade de engravidar que acabou acontecendo. E ainda queria me culpar! Como se eu fosse o único responsável.

A última vez que nos encontramos ela já estava com cinco meses de gravidez. Tivemos uma leve discussão. É que eu havia marcado de sair com ela mas surgiu um imprevisto e daí ela ficou brava. Depois disso, nunca  mais nos encontramos.

Hoje, passados mais de nove meses, o Lucas não veio ao mundo. No lugar dele veio a Maria Clara. (E ela que queria tanto um menino!)

No fim, acho que servi apenas de macho reprodutor, um simples instrumento de procriação. Mais barato que fertilização in vitro.

Não sei como ela está hoje. Nem vi a criança. Pelas informações que obtive, as duas estão passando bem. Mas é bom eu ficar esperto com esse planeta. Ele gira, não para de dar voltas. E um dia nós nos encontraremos de novo.

O Monstro da Lagoa Qualquer (Uma paródia do suspense e terror hollywoodiano.)


Jack e Emma eram namorados. Eles se amavam muito. Estão se amando nesse momento. Mas que pouca vergonha! Enquanto eu estou aqui escrevendo este texto o casal está ali se lambendo e se amassando.
Continuando.
Jack e Emma não podiam se amar na casa de Jack porque os pais dele estavam lá e não podiam se amar na casa de Emma porque os pais dela estavam lá. Eles possuíam uma família muito muito grande e todos estavam presentes, os parentes dele na casa dele e os parentes dela na cassa dela.
Jack pensou na possibilidade de continuarem se amando em algum motel mas, depois de consultar seu bolso, viu que estava sem dinheiro. O motel estava fora de cogitação. Jack estava desempregado. Então Emma teve uma idéia:

– Que tal se continuássemos o nosso amor na beira de algum lago?
– Humm… – pensou Jack. Que lago?
– A Lagoa Qualquer! Que tal?
– Mas e se por acaso algum monstro da lagoa nos atacar?
– Deixa de bobeira, Jack. Monstros da lagoa não existem.

Jack concordou. Sim era uma boa idéia, ele e ela a sós na beira de uma lagoa sem monstro e sem ninguém para atrapalhar.
Emma e Jack se amaram mais um pouco antes de partir. Não paravam de se amar. Ei! Alguém precisa abrir a porta do carro! Finalmente deram uma pausa. Jack e Emma entraram no carro. Jack conferiu o ponteiro do medidor de gasolina: um quarto de tanque. É dá pra ir. Se cortar caminho podem até voltar e sobra um pouco de combustível para ele procurar emprego amanhã.
Jack ligou o carro. Olhou para Emma. Ela olhou para ele. Se beijaram mais um pouco e seguiram em frente pela Alameda das Lamentações virando a próxima á esquerda, entrando na Rua das Lágrimas, depois seguindo em direção ao Norte até o início de uma estrada de terra, a Estrada Chora-Chora. Continuaram mais alguns kilômetros em frente até chegarem a um bosque tenebroso com árvores horripilantes. Como ainda estava de dia, eram cinco horas da tarde aproximadamente, as árvores não pareciam assim tão assustadoras. Mas quando anoitecia… Sinto um calafrio só de pensar nesse bosque.

Estacionaram o carro em uma pequena clareira. Desceram e seguiram por uma trilha até chegarem a uma imensa lagoa negra, com aquelas árvores horríveis beirando a margem.
Começaram a se amar loucamente. Não se sabe por quê, mas Jack sentiu uma vontade inexorável de lavar os pés:

– Querida.
– Sim querido?
– Preciso lavar meus pés.
– Por que?
– Não sei, mas sinto que preciso lavar meus pés.
– !? – foi a resposta de Emma.

Jack tirou o tênis e seguiu para a lagoa. Sentou na beira e colocou seus pés dentro d’água. Enquanto lavava seus pés, Jack observou alguma coisa estranha flutuando na água. Depois viu algumas bolhas. As bolhas aumentavam. E a água borbulhava cada vez mais. E mais e mais. “Será que é alguma lagoa térmica?”, pensou Jack. Então ele resolveu conferir. Foi para as bolhas. E de repente – oh não! – Jack foi atacado por alguma coisa estranha! E se debatia e se afogava.

– Socoorrrooo!! Socoorrrooo!! glubglubglubglub – esperneava Jack. Socoorrrooo!! Socoorrrooo!! glubglubglubglub

Emma ouviu os berros e imediatamente foi ver o que estava acontecendo com seu namorado. Quando chegou na beira da lagoa já haviam acabado o pedido de socorro e as bolhas, e foi tudo assim muito rápido, bem rápido, cinco minutos ou menos, sabe? Aí Emma viu que a mão do seu amado estava boiando n’água e foi logo socorrê-lo mas quando ela puxou aquela mão – essa não! –
veio junto com ela o antebraço do seu namorado e Emma soltou um grito de nojo ao ver aquele pedaço de gente e sentiu uma náusea, uma vontade de vomitar, e soltou uma exclamação assim: “Aaarrghhh, que nojo!” O curioso é que Emma não sentia nojo do antebraço quando ele fazia parte do corpo do seu falecido namorado mas agora… agora que estava separado, ela não suportava ver aquele pedaço de corpo… Essas mulheres!

Já passava das seis horas da tarde. Emma estava com medo. As ávores tenebrosas estavam ficando cada vez mais tenebrosas. Arremessou o antebraço do seu amado na água, bem longe. Então as bolhas voltaram. E foram ficando cada vez mais intensa, mais forte e mais forte e mais forte e Emma estava paralizada diante daquela cena horripilante e, de repente, um mostro exdrúxulo, horrível, medonho, amedrontador, muito muito feio, bizarro, terrível, surgiu na superfície daquela lagoa negra, diante da pobrezinha da Emma. Aí ela saiu em disparada. Começou a correr. E corria e corria muito. Muito mesmo. Corre Emma! Emma não fumava e não bebia e há tempos vinha treinando para a corrida de São Silvestre por isso era ela uma exímia corredora. E continuava correndo. Mas o monstro também corria muito. “Será que ele também tá treinando para a São Silvestre?”, pensou Emma. “Ah, mas de mim ele não vai ganhar. Não mesmo!” E o monstro estava há apenas alguns metros de distância de Emma, talvez cinco metros, ou quatro e meio, talvez três, sei lá, só sei que estava próximo de Emma. “Onde será que esse monstro faz academia?”E continuava correndo. E o monstro atrás dela. Mas de repente – aiaiai! – Emma tropeça na raiz de uma árvore horripilante e cai e começa a gritar de dor e a se espernear de dor e a se contorcer de dor e o monstro se aproximando cada vez mais e mais dela e ela procura em sua bolsa o Gelol e não enconctra o potinho de Gelol, Emma onde foi que você deixou o Gelol?! “Na mesa da cozinha!” Essa não! Agora o monstro estava cara a cara com Emma e Emma gritava:

– Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!! Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!! Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!!

E o monstro grunhia:

– Grrblllllrrrggbllglu!! Grrblllllrrrggbllglu!! Grrblllllrrrggbllglu!!

E Emma continuava a gritar:

– Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!! Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!! Ahhhhh!!! Socorrroooooo!!!

E o monstro aquático com cabeça de tilápia e braços humanos e guelras e escamas e meio peixe meio homem estava se aproximando de Emma até que – finalmente! – ouviu-se um estampido: baaammm. Aí o monstro e Emma ficaram quietos. E mais uma vez o estampido: baaaammmm.
E o monstro soltou outro grunhido horrível aí em meio a mata fechada surgiu uma figura alta e musculosa carregando um calibre 12 nas mãos e, baaaammm, um último tiro direto na cabeça do bicho. O infeliz sem cabeça caiu no chão.
Emma, com muita dificuldade, se levantou e, chorando e soluçando, abraçou o seu herói e colocou a cabeça no peito dele e depois levantou sutilmente o pézinho esquerdo e o herói, com um braço em volta de Emma e o outro segurando a 12 ficou assim, com pose de capa de gibi do Conan, e a câmera foi se distanciando lentamente, um zoom aut, e o herói ficou a olhar para o horizonte com um penteado de He-Man.
E viveram felizes para sempre.

FIM