Antes “só” do que realmente acompanhado

Comecei a ver fantasmas depois de uma desilusão amorosa. Pode parecer um motivo idiota mas acreditem, eu amava aquela mulher. Estávamos em uma sorveteria em uma bela tarde de sábado e tudo estava indo ás mil maravilhas, eu muito contente, ela parecendo estar muito satisfeita e nós ali, tomando cada um uma taça de sorvete de creme com calda de chocolate. Então ela deu a notícia. “Não quero mais ficar com você”. De repente meu sorvete ficou sem sabor. Quis saber o por quê, a razão, o motivo. “Eu simplesmente não quero mais. Eu tentei. Juro que tentei me apaixonar por você, mas não consegui. Me desculpe. Podemos ser amigos se quiser”. O que se seguiu depois foi um surto de indignação, raiva, culpa, autopiedade, frustração. Havia quatro anos que estávamos juntos. Quatro anos! E não quatro dias ou quatro horas.

Depois de (com muito esforço) nos despedirmos, saí pelas ruas da cidade, ruminando a situação, sem ter um lugar específico para ir. Estava começando a me sentir exausto e resolvi parar e sentar em um banco da praça debaixo de uma árvore. Infelizmente todos os bancos que haviam debaixo das poucas árvores estavam ocupados. Olhei para a pequena igreja da praça pensei que seria uma boa ideia entrar, me sentar, descansar e tentar colocar meus pensamentos em ordem. Foi o que eu fiz. E foi nesse dia que eu vi, pela primeira vez na minha vida, um fantasma.

Havia apenas uma garota na igreja e notei que ela estava chorando. Como não conseguia me concentrar e acalmar meus pensamentos devido ao meu péssimo estado de espírito e também devido ao choro, me aproximei da garota e perguntei (me esforçando para manter a serenidade) se estava tudo bem. Não houve resposta, apenas mais choradeira. Me sentei ao lado dela e percebi que ela estava toda encharcada. “Ei, qual o seu nome, moça?” Se chamava Mariane. Seu rosto apresentava uma coloração esverdeada igual a catarro e seus lábios estavam roxos e não haviam nenhum brilho em seus olhos. “Precisa de ajuda, Mariane. Você está ensopada… e seus lábios… sua pele… Precisa de uma ajuda médica…”. Enquanto eu procurava um resquício de sinal com meu celular, ela olhou pra mim e disse que não precisava pois estava morta.

A notícia não me impressionou. Depois de eu ter vivido quatro anos com uma garota que “tentou se apaixonar” e passou esses mesmos quatro anos fingindo que sentia algo por mim, nada mais me impressionava. Naquele momento, tanto fazia se ela estivesse morta ou viva – eu já não conseguia mais discernir a diferença entre fantasia e realidade. “O que aconteceu com você? ” Mais tarde, com a experiência, notei que havia algumas coisas em comum entre os fantasmas: todos eles foram os heróis da sua própria história quando vivos, nenhum deles era o responsável pela sua morte e não eram para eles terem morrido pois havia muita coisa a ser feita. “A culpa foi da minha irmã mais velha. Não era para eu ter morrido. Eu sempre quis aprender a nadar… Meu sonho era ser nadadora profissional, entrar para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Mas minha irmã, sempre uma excelente nadadora, se recusava a me ensinar a nadar. Dizia que eu era incompetente, burra, uma imbecil e que nunca iria conseguir aprender a nadar e que eu iria morrer afogada logo na primeira tentativa e que a culpa seria dela!”. Deu uma pequena pausa, olhando para um ponto fixo no banco a sua frente. “Depois que mamãe arrumou um namorado as coisas pioraram. Era só eu e a Natália… mamãe passava a maior parte do tempo trabalhando e namorando… e a Natália… ela…” começou a chorar novamente “ela só me maltratava, me insultava, me recriminava e me humilhava! Mas na frente do casal, da mamãe e do seu namorado, ela era um amor. Um dia, o namorado da mamãe nos convidou a ir passar um fim de semana em sua chácara. Era um domingo, vinte e sete de agosto de sessenta e quatro”. Dou ou não dou os parabéns a ela? pensei comigo. Naquele sábado ela completava quarenta e nove anos de falecimento. “Eu tinha vinte e seis anos. Mamãe e o namorado foram para a cidade e eu e minha irmã fomos até o lago que ficava próximo da chácara. Mamãe não queria que eu ficasse sozinha e mandou que Natália me levasse junto até o lago. Estávamos somente eu e minha irmã. Então eu não aguentei. Aproveitei que a Natália tinha inventado de nadar até a outra margem do lago, fui até o deck e pulei na água. E me afoguei”. Ela abaixou a cabeça, olhou para as mãos juntas e começou a chorar. “E o que faz aqui na igreja? ”, perguntei, mais por curiosidade que por comiseração. “Eu sempre vinha aqui com minha mãe e com minha irmã. Não sei quanto tempo faz que eu morri e nem quanto tempo faz que eu venho nessa igreja”. Fica quieto, não abra a boca. Melhor que ela não saiba. “Posso fazer alguma coisa para ajudar? ” Ela sacudiu a cabeça de um lado a outro. “Bem, então é melhor eu ir embora. Vou deixar você em paz com suas recordações.” Não se preocupe, tudo vai acabar bem. Me levantei e fui embora.

Hoje, passados quinze anos de visões fantasmagóricas, prefiro mil vezes a companhia dos mortos do que a dos vivos. Os mortos não repreendem, não julgam, não recriminam. Eles apenas lamentam e se arrependem. Lamentam e se arrependem de não terem conseguido atingir um objetivo, de não terem conseguido terminar o que começaram.

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