O homem que flutuava

Quando nasceu, os médicos não conseguiam colocá-lo no bercinho da maternidade. Era o mesmo que tentar colocar uma bexiga no fundo de uma piscina.  Aos três anos não engatinhava, flutuava.  O bebê cresceu e tornou-se uma criança. O seu primeiro dia de aula foi um dia muito curioso. Alunos e funcionários da escola ficaram impressionados ao ver aquela criança flutuando de mãos dadas com sua mãe. A mãe, por sua vez, foi ter com o diretor do colégio a fim de dar explicações sobre o caso.  Contou que seu filho foi pesquisado, analisado, estudado, catalogado e classificado por todo tipo de profissional de tudo quanto era área e que ninguém sabia o que exatamente estava acontecendo. Não havia expliações. O diretor do colégio convocou uma reunião com os professores e pediu que eles tratassem o novo aluno como uma criança normal e que cada professor fizesse o mesmo pedido aos seus alunos. Não adiantou muito. O garoto virou motivo de chacota e recebeu alguns apelidos como “fantasma”, “pena”, “pluma”. A criança cresceu e se tornou um belo rapaz. O interesse da mídia pelo caso acabou. Todos na pequena aldeia já estavam costumados com o Homem que Flutua e o desinteresse ultrapassou as fronteiras do micro e chegou ás margens do macro: o mundo todo ja se habituara com o caso. Aos vinte e sete anos trabalhava como atendente em uma pequena conveniência. Era tímido, olhar vago, falava somente o necessário. Um dia, flutuando tranquilamente na fila de um caixa de supermercado foi surpreendido por uma cutucada em seu ombro: “Desculpe incomodar mas acabou a bateria do meu celular e queria saber que horas são. Não posso me atrasar para a aula”. Ao olhar para os olhos dela, seu rosto, seus lábios, seus cabelos ruivos preso em rabo de cavalo, algo surpreendente aconteceu: pela primeira vez em vinte e sete anos, o Homem que Flutuava finalmente colocou os pés no chão.

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