Faz uma semana que me mudei para esta casa. Na terça-feira, por volta das cinco horas da tarde, ouvi alguém bater palmas no portão. Eu estava assistindo Despedida em Las Vegas e como detesto ser perturbado por quem quer que seja enquanto assisto a um filme, fiz de conta que não tinha ninguém em casa. Mas as palmas persistiram e eu tive que dar um pause e ir bufando de raiva ver quem era o desgraçado que me perturbava. Ao abrir a porta da sala me deparei com uma senhora de cabelos brancos, um rosto oval e marcado pelo tempo, de baixa estatura, meio gordinha. Seus olhos estavam arregalados, suas mãos tremiam e estava ofegante. Parecia bem nervosa. Me senti um pouco compadecido da pobre velhinha e na maior educação perguntei a ela se estava precisando de alguma coisa.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Não entendi. Caindo terra na sala? Como assim? Pedi para se acalmar e me explicar direitinho o que realmente estava acontecendo.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Comecei a compreender melhor o que estava acontecendo: a pobre coitada estava com a mente perturbada e sob tensão. Parece que estava tendo uma crise.
– Eu sinto muito, minha senhora, mas não posso ajudá-la.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Depois de um momento de silêncio, pedi mais uma vez desculpas, desejei-lhe uma boa tarde, dei as costas e voltei para casa. Não ouvi mais nada de palmas ou vozes. Olhei pela janela e a velhinha já havia ido embora. Continuei com o filme.
Na manhã seguinte fui á feira. Na barraca de condimentos encontrei com seo Agenor, a pessoa que me ajudou na mudança e o mais antigo morador do bairro. Entre conversas que variavam da qualidade dos produtos a situação econômica do país, acabamos por desembarcar a prosa nos moradores do bairro. Aproveitei a oportunidade para lhe contar o que havia acontecido na tarde do dia anterior e saber se ele conhecia a tal velhinha e se ela sofria realmente de algum problema mental ou seja lá o que for. Ao terminar a narrativa, percebi que seo Agenor ficou sério. Parecia um tanto assustado. Pediu para que eu repetisse o que aconteceu que, confesso, fiz com um pouco de ironia. Então Agenor empalideceu. Ficou imóvel como uma estátua.
– O senhor está bem? – Perguntei em tom de preocupação.
– Mas não pode ser… Pela descrição é a Dona Filomena… Ela faleceu vítima de infarto fulminante na noite de segunda-feira e foi enterrada ontem, por volta das cinco horas da tarde…
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