Serenidade

Há dois meses, desde que eu me aposentei por invalidez devido a um ataque cardíaco, mais tarde diagnosticado como cardiopatia grave, eu vinha procurando um lugar tranquilo pra morar. Queria um apartamento. Como sou sozinho, viúvo há dois anos, sem filhos e sem família, com uma idade relativamente avançada, os apartamentos se apresentam lugares ideais pra como eu, tranquilo, sereno e sossegado. São pequenos e aconchegantes, por isso, desde que minha esposa faleceu, comecei a sentir certo apreço por esse tipo de ambiente. Queria continuar a me sentir em paz comigo mesmo.

Fiz uma pesquisa relativamente extensa até que encontrei um lugar que, em princípio, me parecia perfeito: era um condomínio com três prédios de quatro andares cada, um ao lado do outro, de cor bege, no meio do nada, com muita área verde ao redor e, o que era mais importante – eles eram recém-construídos e por isso não havia muita gente morando no local. O corretor me afirmou que esse era um lugar aprazível e que eu poderia viver sossegado até o fim dos meus dias. Comprei o imóvel.

Por mais ou menos três semanas eu vivia no mais completo silêncio e serenidade o que contribuiu e muito para o meu tratamento me levando a uma rápida e progressiva melhora. Mas esse silêncio e essa tranquilidade não duraram muito tempo. O apartamento de cima fora ocupado por um desajustado mental, um alcoolista e semianalfabeto. No dia em que se mudaram, ele, a esposa e seu filho (um garoto de uns quatorze anos mais ou menos) eu até ajudei a descarregar o caminhão e a dispor alguns móveis no apartamento. O homem trabalhava como pintor, e era bom no que fazia. Prestou alguns serviços para o condomínio e pude ver que ele era caprichoso e que amava o que seu ofício. Mas o problema não era esse. O problema começou quando ele chegava do serviço.

Todas as noites, por volta das oito horas, eu, querendo ver o jornal, não conseguia devido à baderna, aos gritos e toda a algazarra que ele fazia ao chegar bêbado do trabalho. Vivia xingando sua esposa, ameaçando seu filho, quebrando copos e pratos (eu cogitava que fossem esses os objetos, pois só os ouvia, não estava lá para ver). Na primeira noite relevei. Na segunda também. Na terceira eu pensei em tomar uma decisão: falar com a síndica na manhã seguinte. Foi o que fiz. Expliquei toda a situação e ela, uma senhora muito atenciosa e prestativa, e me garantiu que iria resolver o problema.

As noites que se seguiram foram silenciosas. Porém, uma semana depois toda a impertinência do meu vizinho voltou a se repetir. Resolvi, uma noite, ir pessoalmente falar com ele. Apertei a campainha e imediatamente ele me atendeu, vociferando e babando como os olhos ejetados de sangue: “Que é? Que que vochê quer aquiiierrr?”  gritava o animal enquanto gotas de saliva espirravam da sua boca. “Por favor, o senhor poderia fazer a gentileza de falar mais baixo, eu estou tentando descansar. Sofro de cardiopatia…” mal terminei a frase fui interrompido por um “VAI SHE FODERR SHEU FELADAPUTAAA!”. E bateu a porta na minha cara. Não havia conversa.

Então, numa noite da mais insuportável baderna, resolvi tomar outra decisão. Fui até meu guarda roupa, peguei minha caixa preta e, de dentro dela, tirei minha .357 Magnum. Coloquei duas munições e subi no apartamento do vizinho para tentar um novo diálogo. Como eu esperava. O meu inimigo abriu a porta esbravejando, babando e cambaleando “Eu jchá te mandei pra PUTA QUE PARIU hchje, seu merda…” e mal ele havia terminado seus insultos, levantei minha mão direita, estiquei meu braço em direção a uma daquelas cabeças de Cérbero e puxei o gatilho. A cabeça do monstro havia se jogado pra trás com o impacto levando seu corpo junto. Na porta, restos de uma geleia (alguns preferem chamar de cérebro) misturada com sangue, se espalharam formando uma pintura abstrata de Jackson Pollock. E no pé da porta, sentado com a cabeça pendendo para o lado esquerdo, jazia o que outrora fora meu inimigo mortal.

Os gritos de terror e angústia de sua esposa ainda ecoam nos meus ouvidos enquanto escrevo essas palavras, deitado aqui no leito desse hospital, enquanto aguardo receber alta para me mudar para um novo apartamento, dessa vez financiado pelo Estado.

Lúcia

Antes era um Deus nos acuda acordar às seis da manhã, escovar dente, tomar café, escovar dente de novo, trocar de roupa, pentear o cabelo, arrumar o material e beijinho da mamãe “Vai com Deus, filho. Boa aula” “Tchau mãe”.

No caminho pra escola, sonolento e de mau humor, vai murmurando a cada passo. “As duas primeiras aulas de Literatura com aquele professor chato! Aff! Ninguém merece. Odeio ler. Detesto Literatura. E as duas últimas de Matemática… Tomanocu! E ainda é segunda-feira. Será que a Lúcia vai hoje na escola? Se não fosse pela Lúcia eu nem iria nessa merda”.

Enquanto o professor explicava a matéria ele segurava a cabeça com a mão e o cotovelo apoiado na carteira. “O Romantismo…”, explicava o professor. Ôpa! Romantismo!? “Ah… Lúcia…”. (Suspiro.) Os olhinhos virando nas órbitas. Pensava em um relacionamento sério. Casamento talvez. Por que não? Imaginava como seria lindo os dois correndo de mãos dadas na praia, cabelos esvoaçando ao vento, o sol sorrindo, se pondo no horizonte. “Ah… Lúcia…”. Tudo é lindo quando se tem dezesseis anos. E o professor explicando a matéria. Vai cair na prova.

Lá no fundão da sala, quatro garotos. Parece que passaram o final de semana inteiro estudando o Manual das Piadas Infames e Brincadeiras Sem Graça Vl. 1. Bolinha de papel atirada por zarabatanas feitas com tubo de caneta. Direto na nuca d’O Aluno do Mês. “Ô prof…”. Se caguetar morre. É melhor ficar quieto. Daqui a pouco o intervalo…

Num outro canto da sala – sozinho, isolado, cabelos desgrenhados, calça preta, coturno, pulseira preta, crucifixo de metal, camiseta do The Cure na mochila (na hora da saída ele troca) – o Faz-De-Conta-Que-Sou-Vampiro. Sempre de cara feia, emburrado. A vida é uma merda. Que bosta.

Perto da porta as Irmãs Gêmeas. Não que sejam gêmeas geneticamente. Talvez tenham sido em uma outra vida. As amigas não se desgrudam. Aonde uma está a outra está também. O que uma faz, a outra faz também. Sempre cochichando, de risadinhas “Hihihihi!”. Siamesas.

E tem o Garoto Atleta. Sabe tudo sobre esportes, principalmente futebol. O braço direito do professor de Educação Física. Só não é muito bom em escrever o cabeçalho na prova. “Nome, número e série…!? Que porra é essa? Não tô entendendo”.

Enquanto isso ele conta os minutos para o intervalo. Meia página de lição. Prestou a atenção em tudo o que o professor disse. “Lúcia Lúcia Lúcia. A Escola Lúcia… A obra Lúcia…”.

Soa o sinal. Hora da Lúcia.

E hoje? A Lúcia se formou em Medicina. Virou doutora em Neurologia. Foi morar na Alemanha. E ele? Ele já está com seus trinta e poucos anos, desempregado e ainda mora com a mãe. Agora ele tá lá na escola pintando uma faixa com os dizeres “NÃO FECHEM MINHA ESCOLA” enquanto pensa na Lúcia.

 

 

 

 

Antes “só” do que realmente acompanhado

Comecei a ver fantasmas depois de uma desilusão amorosa. Pode parecer um motivo idiota mas acreditem, eu amava aquela mulher. Estávamos em uma sorveteria em uma bela tarde de sábado e tudo estava indo ás mil maravilhas, eu muito contente, ela parecendo estar muito satisfeita e nós ali, tomando cada um uma taça de sorvete de creme com calda de chocolate. Então ela deu a notícia. “Não quero mais ficar com você”. De repente meu sorvete ficou sem sabor. Quis saber o por quê, a razão, o motivo. “Eu simplesmente não quero mais. Eu tentei. Juro que tentei me apaixonar por você, mas não consegui. Me desculpe. Podemos ser amigos se quiser”. O que se seguiu depois foi um surto de indignação, raiva, culpa, autopiedade, frustração. Havia quatro anos que estávamos juntos. Quatro anos! E não quatro dias ou quatro horas.

Depois de (com muito esforço) nos despedirmos, saí pelas ruas da cidade, ruminando a situação, sem ter um lugar específico para ir. Estava começando a me sentir exausto e resolvi parar e sentar em um banco da praça debaixo de uma árvore. Infelizmente todos os bancos que haviam debaixo das poucas árvores estavam ocupados. Olhei para a pequena igreja da praça pensei que seria uma boa ideia entrar, me sentar, descansar e tentar colocar meus pensamentos em ordem. Foi o que eu fiz. E foi nesse dia que eu vi, pela primeira vez na minha vida, um fantasma.

Havia apenas uma garota na igreja e notei que ela estava chorando. Como não conseguia me concentrar e acalmar meus pensamentos devido ao meu péssimo estado de espírito e também devido ao choro, me aproximei da garota e perguntei (me esforçando para manter a serenidade) se estava tudo bem. Não houve resposta, apenas mais choradeira. Me sentei ao lado dela e percebi que ela estava toda encharcada. “Ei, qual o seu nome, moça?” Se chamava Mariane. Seu rosto apresentava uma coloração esverdeada igual a catarro e seus lábios estavam roxos e não haviam nenhum brilho em seus olhos. “Precisa de ajuda, Mariane. Você está ensopada… e seus lábios… sua pele… Precisa de uma ajuda médica…”. Enquanto eu procurava um resquício de sinal com meu celular, ela olhou pra mim e disse que não precisava pois estava morta.

A notícia não me impressionou. Depois de eu ter vivido quatro anos com uma garota que “tentou se apaixonar” e passou esses mesmos quatro anos fingindo que sentia algo por mim, nada mais me impressionava. Naquele momento, tanto fazia se ela estivesse morta ou viva – eu já não conseguia mais discernir a diferença entre fantasia e realidade. “O que aconteceu com você? ” Mais tarde, com a experiência, notei que havia algumas coisas em comum entre os fantasmas: todos eles foram os heróis da sua própria história quando vivos, nenhum deles era o responsável pela sua morte e não eram para eles terem morrido pois havia muita coisa a ser feita. “A culpa foi da minha irmã mais velha. Não era para eu ter morrido. Eu sempre quis aprender a nadar… Meu sonho era ser nadadora profissional, entrar para a Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos. Mas minha irmã, sempre uma excelente nadadora, se recusava a me ensinar a nadar. Dizia que eu era incompetente, burra, uma imbecil e que nunca iria conseguir aprender a nadar e que eu iria morrer afogada logo na primeira tentativa e que a culpa seria dela!”. Deu uma pequena pausa, olhando para um ponto fixo no banco a sua frente. “Depois que mamãe arrumou um namorado as coisas pioraram. Era só eu e a Natália… mamãe passava a maior parte do tempo trabalhando e namorando… e a Natália… ela…” começou a chorar novamente “ela só me maltratava, me insultava, me recriminava e me humilhava! Mas na frente do casal, da mamãe e do seu namorado, ela era um amor. Um dia, o namorado da mamãe nos convidou a ir passar um fim de semana em sua chácara. Era um domingo, vinte e sete de agosto de sessenta e quatro”. Dou ou não dou os parabéns a ela? pensei comigo. Naquele sábado ela completava quarenta e nove anos de falecimento. “Eu tinha vinte e seis anos. Mamãe e o namorado foram para a cidade e eu e minha irmã fomos até o lago que ficava próximo da chácara. Mamãe não queria que eu ficasse sozinha e mandou que Natália me levasse junto até o lago. Estávamos somente eu e minha irmã. Então eu não aguentei. Aproveitei que a Natália tinha inventado de nadar até a outra margem do lago, fui até o deck e pulei na água. E me afoguei”. Ela abaixou a cabeça, olhou para as mãos juntas e começou a chorar. “E o que faz aqui na igreja? ”, perguntei, mais por curiosidade que por comiseração. “Eu sempre vinha aqui com minha mãe e com minha irmã. Não sei quanto tempo faz que eu morri e nem quanto tempo faz que eu venho nessa igreja”. Fica quieto, não abra a boca. Melhor que ela não saiba. “Posso fazer alguma coisa para ajudar? ” Ela sacudiu a cabeça de um lado a outro. “Bem, então é melhor eu ir embora. Vou deixar você em paz com suas recordações.” Não se preocupe, tudo vai acabar bem. Me levantei e fui embora.

Hoje, passados quinze anos de visões fantasmagóricas, prefiro mil vezes a companhia dos mortos do que a dos vivos. Os mortos não repreendem, não julgam, não recriminam. Eles apenas lamentam e se arrependem. Lamentam e se arrependem de não terem conseguido atingir um objetivo, de não terem conseguido terminar o que começaram.

Nunca havia pensado nela sem antes pesar em si mesmo. Seu egoísmo o enganava de tal maneira que o fazia acreditar que a conhecia quando na verdade tudo o que fazia era extrair dela o máximo de informações possíveis sobre si mesmo

Faz uma semana que me mudei para esta casa. Na terça-feira, por volta das cinco horas da tarde, ouvi alguém bater palmas no portão. Eu estava assistindo Despedida em Las Vegas e como detesto ser perturbado por quem quer que seja enquanto assisto a um filme, fiz de conta que não tinha ninguém em casa. Mas as palmas persistiram e eu tive que dar um pause e ir bufando de raiva ver quem era o desgraçado que me perturbava. Ao abrir a porta da sala me deparei com uma senhora de cabelos brancos, um rosto oval e marcado pelo tempo, de baixa estatura, meio gordinha. Seus olhos estavam arregalados, suas mãos tremiam e estava ofegante. Parecia bem nervosa. Me senti um pouco compadecido da pobre velhinha e na maior educação perguntei a ela se estava precisando de alguma coisa.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Não entendi. Caindo terra na sala? Como assim? Pedi para se acalmar e me explicar direitinho o que realmente estava acontecendo.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Comecei a compreender melhor o que estava acontecendo: a pobre coitada estava com a mente perturbada e sob tensão. Parece que estava tendo uma crise.
– Eu sinto muito, minha senhora, mas não posso ajudá-la.
– Tá caindo terra na minha sala. Por favor me ajuda?
Depois de um momento de silêncio, pedi mais uma vez desculpas, desejei-lhe uma boa tarde, dei as costas e voltei para casa. Não ouvi mais nada de palmas ou vozes. Olhei pela janela e a velhinha já havia ido embora. Continuei com o filme.
Na manhã seguinte fui á feira. Na barraca de condimentos encontrei com seo Agenor, a pessoa que me ajudou na mudança e o mais antigo morador do bairro. Entre conversas que variavam da qualidade dos produtos a situação econômica do país, acabamos por desembarcar a prosa nos moradores do bairro. Aproveitei a oportunidade para lhe contar o que havia acontecido na tarde do dia anterior e saber se ele conhecia a tal velhinha e se ela sofria realmente de algum problema mental ou seja lá o que for. Ao terminar a narrativa, percebi que seo Agenor ficou sério. Parecia um tanto assustado. Pediu para que eu repetisse o que aconteceu que, confesso, fiz com um pouco de ironia. Então Agenor empalideceu. Ficou imóvel como uma estátua.
– O senhor está bem? – Perguntei em tom de preocupação.
– Mas não pode ser… Pela descrição é a Dona Filomena… Ela faleceu vítima de infarto fulminante na noite de segunda-feira e foi enterrada ontem, por volta das cinco horas da tarde…

O homem que flutuava

Quando nasceu, os médicos não conseguiam colocá-lo no bercinho da maternidade. Era o mesmo que tentar colocar uma bexiga no fundo de uma piscina.  Aos três anos não engatinhava, flutuava.  O bebê cresceu e tornou-se uma criança. O seu primeiro dia de aula foi um dia muito curioso. Alunos e funcionários da escola ficaram impressionados ao ver aquela criança flutuando de mãos dadas com sua mãe. A mãe, por sua vez, foi ter com o diretor do colégio a fim de dar explicações sobre o caso.  Contou que seu filho foi pesquisado, analisado, estudado, catalogado e classificado por todo tipo de profissional de tudo quanto era área e que ninguém sabia o que exatamente estava acontecendo. Não havia expliações. O diretor do colégio convocou uma reunião com os professores e pediu que eles tratassem o novo aluno como uma criança normal e que cada professor fizesse o mesmo pedido aos seus alunos. Não adiantou muito. O garoto virou motivo de chacota e recebeu alguns apelidos como “fantasma”, “pena”, “pluma”. A criança cresceu e se tornou um belo rapaz. O interesse da mídia pelo caso acabou. Todos na pequena aldeia já estavam costumados com o Homem que Flutua e o desinteresse ultrapassou as fronteiras do micro e chegou ás margens do macro: o mundo todo ja se habituara com o caso. Aos vinte e sete anos trabalhava como atendente em uma pequena conveniência. Era tímido, olhar vago, falava somente o necessário. Um dia, flutuando tranquilamente na fila de um caixa de supermercado foi surpreendido por uma cutucada em seu ombro: “Desculpe incomodar mas acabou a bateria do meu celular e queria saber que horas são. Não posso me atrasar para a aula”. Ao olhar para os olhos dela, seu rosto, seus lábios, seus cabelos ruivos preso em rabo de cavalo, algo surpreendente aconteceu: pela primeira vez em vinte e sete anos, o Homem que Flutuava finalmente colocou os pés no chão.