Através da janela redonda o garoto contemplava, estupefato, uma sala circular. A sala em si não era exatamente o que mais lhe atraía a atenção, apesar de ela não se parecer em nada com nenhum outro cômodo ao qual ele tenha visto ou se lembrado durante seus nove anos de vida. O que, na realidade, lhe fascinava eram os objetos dispostos nesse cômodo: haviam contas e ossos, e penas e o que pareciam ser berloques e vários outros badulaques pendurados ou suspensos no ar, pois a sala parecia não ter teto. Diversas prateleiras e estantes se espalhavam de forma desordenada mas não bagunçada pelo aposento. Em uma delas pôde ver o que parecia ser um crânio de algum animal, talvez um lagarto ou um jacaré… não… era muito grande pra ser de um jacaré. De um crocodilo talvez? Não sabia. Várias compotas se encontravam dispostas nas prateleiras das estantes de maneira organizada. Em uma delas havia um líquido amarelado e, imerso nesse líquido, viu algo parecido com um homenzinho. Ao lado de uma das estantes se encontrava uma vassoura de palha com o cabo retorcido feito do que parecia ser de uma madeira muito envelhecida. Mas um objeto em particular lhe chamou muita a atenção: na parede em frente a janela, havia uma lareira e nela se encontrava um caldeirão e, dentro desse caldeirão, tinha um líquido vermelho e viscoso semelhante a geléia de morango mas com um vermelho mais denso. Aquela pasta vermelha e viscosa despertava no garoto certa curiosidade pois lhe parecia ser muito suculenta e gostosa. Seus ohos brilhavam e sua boca salivava ao admirar o conteúdo daquele caldeirão.

De repente, como num estalo, o garoto despertou e voltou a si. Olhou ao redor, sentindo-se um pouco perdido… por quanto tempo ficara a contemplar aquela sala? Já estava anoitecendo. Desceu do caixote ao qual usara para olhar pela janela, pegou sua bola e, no momento em que estava saindo daquele terreno mal cuidado, sentiu uma leve brisa gélida atingir a sua nuca arrepiando toda a coluna vertebral. Imediatamente o garoto ficou paralisado. Em seguida ouviu um sussurro, uma voz bem baixinha falando ao pé do seu ouvido: “Venha…”.

Depois desse episódio, o menino nunca mais em toda sua vida voltou áquela casa em forma de beterraba.

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Estige

Sentia como se stivesse na barca de Caronte. Mas não era, era uma Kombi branca com o motorista e mais três almas que nunca vi na vida. Passava por ruas que também nunca vi, estradas de terra sem nome e sem placa, ladeadas por pastos secos e uma ou outra pequena indústria. O motorista era era velho, arcado e esquelético que lembrava muito um urubu doente – era Caronte.

Ninguém falava nada, nem tossia, espirrava ou pigarreava, eu memo não conseguia articular uma palavra – estava emocionalmente mudo ou morto, não me lembro.

Chegamos a outra ponta da estrada. A Kombi-Barca parou, o motorista Caronte, eu e as outras almas descemos e seguimos cada um pro seu quarto de luz.

caronte

Manhã dominical

Era um daqueles domingos de churrasco, piscina e macarronada na casa da avó. Céu claro, sem nuvens, solzinho iluminando, sem preconceito, as mentes mentecaptas e brilhantes.

Saiu pra comprar pão e viu pessoas. Pessoas aparentemente felizes, contagiadas pela beleza bucólica do domingo churrascal. Parecia que todas as pessoas tinham cara de domingo. Menos ele. Seu peito estava nublado. A boca seca. Os ombros caídos. Pediu quatro pães sem olhar para a balconista, sem elevar a voz, assim bem mecanicamente.

Seus pensamentos não estavam na padaria, não estavam no domingo, nem no churrasco, nem nas faces dominicalmente felizes. Estavam nela. Era injusto essa discrepância: as pessoas felizes, carregando sacos de carvão, engradados de refrigerante e cerveja, rindo, gesticulando, famílias se divertindo nas áreas de suas casas, músicas alegres, sol com rosto de bebezinho rindo e balbuciando enquanto que ele, nesse dia tão campesino, não estava com ela. E talvez nem fosse estar.

Um dia sem ela não era um dia, era um vácuo.

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Um dia lindo

Fazia um lindo dia lá fora. Ao olhar para o céu e senti aquela pulsão lacaniana – uma verdadeira obra de arte.
Eu estava feliz. Ia me encontrar com o amor da minha vida. Estava tudo pronto: banho tomado, dente escovado, roupa limpa. No instante em que eu ia abrir a porta para mergulhar naquele mar de amor e satisfação emanado pelos raios de sol, o telefone tocou. Era ela, o meu amor. Disse que não poderia ir, que teria que resolver negócios pendentes com o ex (ou atual) namorado. Estavam há três anos em meio no vai-e-volta, no chove-e-não-molha. Eu aceitei a sisituação. Disse que tudo bem, sem problemas. Se isso a fazer se sentir melhor…
Ao desligar o telefone, me senti como Belerofonte – caí do cavalo. Logo em seguida ao sentimento de derrota, alguém bate à porta. Pergunto quem é. “A Angústia”, responde uma voz roca lá de fora. Me sento à mesa, com uma jarra e um copo d’água, acendo um cigarro e mando entrar. Ela se aproxima com uma caixa de bombons debaixo do braço. Coloca a caixa em cima da mesa, senta e começa a deturpar meus pensamentos. Então eu me levanto, ergo minha cabeça e dedo em riste, digo com propriedade:
– Eu a amo! A amo do jeito que ela é e sim, eu aceito a nossa situação!
O monstro babão esbugalhou seus olhos vermelhos, se levantou, ameaçou pegar a caixa d bombons mas imediatamente eu a repreendi:
– Tira as patas! Vou dividir com a Melancolia.
Meia hora depois estávamos eu e a Melancolia, dividindo lágrimas e chocolate.

Eu e meu Pangaré

Sou forasteiro e quando cheguei nesta pequena cidade imediatamente o dono do Saloon saiu na porta vestindo um avental preto, uma camisa branca engomada, uma gravata borboleta, os cabelos penteados, bigodinho feito e, enquanto enxugava o copo me lançava um olhar de cima a baixo desconfiado; as meretrizes ficaram todas alvoroçadas e uma delas, deu pra ouvir, dizia “carne nova no pedaço!”; o xerife me olhava com reprovação enquanto um de seus homens, com o dedo indicador, levantava a aba do chapéu e o outro colocava a mão no coldre, ambos também desconfiados; as mulheres de bem fechavam as janelas e seus maridos me lançavam um olhar de reprovação enquanto engatilhavam as espingardas; as crianças pararam de brincar e o ancião, sentado em sua cadeira de balanço, fumando cachimbo, me olhava surpreso como quem dizia “ha muito tempo não recebemos visita”. Enquanto que eu, montado no meu cavalo pangaré, lançava um sorriso patético-heroico como quem diz “calma pessoal, viemos em paz”

Eu e meu Pangaré

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Tarde de verão

Tarde de verão

Quarta-feira, 19 de agosto de 1987
2:45 pm:

O Colecionador de Armas acaba de dar os últimos ajustes na sua roupa de Rambo com direito a faixa na cabeça e tudo mais. Escolhe suas armas – uma 765 e uma AK 47. O dia está lindo, céu azul-anil, sem nuvens. Uma autêntica tarde de verão.

Parado na soleira da porta, o Colecionador inspira de leve a brisa quente. Um suspiro e… sai da um rolé de mãos dadas com a Morte, AK 47 engatilhada.
Ora, veja só! A mamãe fazendo piquenique com seu filho – 13 tiros em suas costas.

Então nosso desajustado mental prossegue pela A4, em direção a Hungerford. Para em um posto de gasolina, atira no caixa e erra duas vezes antes de ir embora e retomar seu percurso em direção à sua cidade.

Ao voltar pra casa, o Rambo fake atira no próprio cachorro, ateia fogo na sua casa e depois começa a mirar nos vizinhos, atirando em cinco pessoas. Chegou um policial à cena. Uma lástima… Roger Brereton morreu na hora dentro da viatura.

Em seguida o desequilibrado começa a vaguear pelas ruas da cidadezinha indiscriminadamente, atirando a torto e a direito em qualquer um que passasse e, algumas vezes, invadia casas e atirava em quem quer que encontrasse. Sua mãe – coitada! – tentou conter a cólera endemoniada do filho mas ele atirou nela e a matou com um único tiro.

Em pouco menos de uma hora o Monster High já havia dado cabo de treze pessoas e ferido outras 16. Satisfeito (ou não) o matador vai até a sua antiga escola que, fazendo jus ao ditado “a criança e ao borracho, Deus põe a mão embaixo”, estava fechada devido as férias escolares.
Não demorou muito os policiais cercaram o prédio. Várias tentativas de negociação mas sem nenhum êxito.

As 8:10 pm os policiais invadiram a escola munidos de equipamentos de detecção de calor. O atirador estava em um canto da secretaria e não se movia. Já era tarde demais, o Sniper usou a arma contra si mesmo.
As 8;45 pm o sr. Smith anuncia: “A tragédia acabou”.

Nota: até hoje ninguém soube o real motivo que levou Michael Robert Ryan, 27 anos, atirador profissional e colecionador de armas de fogo, a cometer tamanho massacre. Avisaram da atrocidade a sra. Thatcher de uma linha direta e o então ministro adjunto, Douglas Hogg prometeu reconsiderar as leis sobre armas na Grã Bretanha “Este é um acidente terrível e nada do que eu diga poderá transmitir meus sentimentos de profundo pesar para com as familias dos mortos e feridos”.

Serenidade

Há dois meses, desde que eu me aposentei por invalidez devido a um ataque cardíaco, mais tarde diagnosticado como cardiopatia grave, eu vinha procurando um lugar tranquilo pra morar. Queria um apartamento. Como sou sozinho, viúvo há dois anos, sem filhos e sem família, com uma idade relativamente avançada, os apartamentos se apresentam lugares ideais pra como eu, tranquilo, sereno e sossegado. São pequenos e aconchegantes, por isso, desde que minha esposa faleceu, comecei a sentir certo apreço por esse tipo de ambiente. Queria continuar a me sentir em paz comigo mesmo.

Fiz uma pesquisa relativamente extensa até que encontrei um lugar que, em princípio, me parecia perfeito: era um condomínio com três prédios de quatro andares cada, um ao lado do outro, de cor bege, no meio do nada, com muita área verde ao redor e, o que era mais importante – eles eram recém-construídos e por isso não havia muita gente morando no local. O corretor me afirmou que esse era um lugar aprazível e que eu poderia viver sossegado até o fim dos meus dias. Comprei o imóvel.

Por mais ou menos três semanas eu vivia no mais completo silêncio e serenidade o que contribuiu e muito para o meu tratamento me levando a uma rápida e progressiva melhora. Mas esse silêncio e essa tranquilidade não duraram muito tempo. O apartamento de cima fora ocupado por um desajustado mental, um alcoolista e semianalfabeto. No dia em que se mudaram, ele, a esposa e seu filho (um garoto de uns quatorze anos mais ou menos) eu até ajudei a descarregar o caminhão e a dispor alguns móveis no apartamento. O homem trabalhava como pintor, e era bom no que fazia. Prestou alguns serviços para o condomínio e pude ver que ele era caprichoso e que amava o que seu ofício. Mas o problema não era esse. O problema começou quando ele chegava do serviço.

Todas as noites, por volta das oito horas, eu, querendo ver o jornal, não conseguia devido à baderna, aos gritos e toda a algazarra que ele fazia ao chegar bêbado do trabalho. Vivia xingando sua esposa, ameaçando seu filho, quebrando copos e pratos (eu cogitava que fossem esses os objetos, pois só os ouvia, não estava lá para ver). Na primeira noite relevei. Na segunda também. Na terceira eu pensei em tomar uma decisão: falar com a síndica na manhã seguinte. Foi o que fiz. Expliquei toda a situação e ela, uma senhora muito atenciosa e prestativa, e me garantiu que iria resolver o problema.

As noites que se seguiram foram silenciosas. Porém, uma semana depois toda a impertinência do meu vizinho voltou a se repetir. Resolvi, uma noite, ir pessoalmente falar com ele. Apertei a campainha e imediatamente ele me atendeu, vociferando e babando como os olhos ejetados de sangue: “Que é? Que que vochê quer aquiiierrr?”  gritava o animal enquanto gotas de saliva espirravam da sua boca. “Por favor, o senhor poderia fazer a gentileza de falar mais baixo, eu estou tentando descansar. Sofro de cardiopatia…” mal terminei a frase fui interrompido por um “VAI SHE FODERR SHEU FELADAPUTAAA!”. E bateu a porta na minha cara. Não havia conversa.

Então, numa noite da mais insuportável baderna, resolvi tomar outra decisão. Fui até meu guarda roupa, peguei minha caixa preta e, de dentro dela, tirei minha .357 Magnum. Coloquei duas munições e subi no apartamento do vizinho para tentar um novo diálogo. Como eu esperava. O meu inimigo abriu a porta esbravejando, babando e cambaleando “Eu jchá te mandei pra PUTA QUE PARIU hchje, seu merda…” e mal ele havia terminado seus insultos, levantei minha mão direita, estiquei meu braço em direção a uma daquelas cabeças de Cérbero e puxei o gatilho. A cabeça do monstro havia se jogado pra trás com o impacto levando seu corpo junto. Na porta, restos de uma geleia (alguns preferem chamar de cérebro) misturada com sangue, se espalharam formando uma pintura abstrata de Jackson Pollock. E no pé da porta, sentado com a cabeça pendendo para o lado esquerdo, jazia o que outrora fora meu inimigo mortal.

Os gritos de terror e angústia de sua esposa ainda ecoam nos meus ouvidos enquanto escrevo essas palavras, deitado aqui no leito desse hospital, enquanto aguardo receber alta para me mudar para um novo apartamento, dessa vez financiado pelo Estado.