Resenha sobre o conto “Negrinha” de José Bento Monteiro Lobato

Preto/Branco

O conto Negrinha, publicado em 1920, considerado um dos melhores contos de Monteiro Lobato, é narrado em terceira pessoa do singular e reflete a indignação do autor perante a crueldade humana nos tempos da escravidão. Negrinha é uma órfã de sete anos de idade, filha de escravos, nascida na senzala e adotada pela perversa Dona Inácia. Ela só adota a criança para “salvar” sua alma, “Quem da aos pobres empresta a Deus”, diz o monsenhor, personagem que a visita regularmente e cuja participação no enredo reflete o alívio das dores da consciência de uma mulher atormentada pelas maldades e crueldades que cometera em outros tempos com escravos. Negrinha serve apenas de escape dessas dores, é uma espécie de mola de propulsão que consiste em um instrumento de alívio para a dona Inácia, se tornando um tipo de “bicho-homem”. Não é por amor, carinho, mas sim por puro interesse canônico que Negrinha é adotada.

Há várias evidências dicotômicas no texto. A mais explícita está presente no momento em que Inácia recebe a visita de suas sobrinhas, “lindas meninas louras, ricas, nascidas e criadas em ninho de plumas”: brancas – princesas, negra – escrava; homem branco – possui alma, homem negro – não possui alma. Outra evidência dessa dicotomia é o modo irônico em que como o autor trata a vilã: “Santa”, “Ótima, a dona Inácia”, “Excelente patroa”, delineando assim o caráter violento da vilã.

A epifania se encontra na ocasião em que Negrinha fica a observar os brinquedos das meninas, porém, o auge do sentimento se dá no momento em que a escrava vê pela primeira vez uma boneca. É nesta ocasião em que o comportamento das personagens muda completamente: o coração amargurado da patroa, arrebatada, apenas por alguns instantes, ao ver os olhos de Negrinha ao mirar o brinquedo, sentindo, por fim, uma leve piedade pela lacaia, deixa-a brincar com as outras crianças. Mas enfatiza: “— Vão todas brincar no jardim, e vá você também, mas veja lá, hein?”; e o comportamento da escrava ao brincar com a boneca: “Negrinha, coisa humana, percebeu nesse dia da boneca que tinha uma alma. Divina eclosão! Surpresa maravilhosa do mundo que trazia em si e que desabrochava, afinal, como fulgurante flor de luz”.

A referência dicotômica está na morte de Negrinha quando Lobato da a ela um final trágico: morre e se transforma em impressões – uma cômica, e outra de saudades: “no nó dos dedos de dona Inácia“. O conto é uma referência ao intenso progresso econômico-social pelo qual o Brasil estava passando nas primeiras décadas do século XX o qual o autor compara com os tempos da escravidão. A mão de obra não era valorizada se parecendo muito com o Brasil do final do século XIX, com a diferença de que os trabalhadores eram remunerados. A abolição da escravatura foi necessária a esse progresso, pois o país precisava de mão de obra livre para auxiliar nas grandes construções: edifícios, estradas de ferro, mineração, por exemplo. Mas isso não garantiu a liberdade de expressão dos negros, não garantiu, enfim, o fim do preconceito: “O 13 de Maio tirou-lhe das mãos o azorrague, mas não lhe tirou da alma a gana”.

(para ler o conto na íntegra: http://www.bancodeescola.com/negrinha.htm)

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