Resenha crítica do filme Narradores de Javé

Conflitos

 

Em um vale distante no sul da Bahia, há um vilarejo chamado Javé. Seus habitantes formam uma comunidade estritamente oral sem o conhecimento da linguagem escrita. Compõem-se em sua maioria de analfabetos ou semianalfabetos. O vale de Javé está prestes a ficar submerso pelas águas, graças a um projeto do Governo do Estado da Bahia que consiste em construir uma represa no local visando o progresso do estado e do País. A esperança dos moradores é Antonio Biá, o único habitante letrado. É ele quem terá de escrever a História de Javé em um livro e “resgatar”, por meio de histórias narradas por alguns habitantes, toda a sua cultura e toda sua identidade fazendo com que a aldeia faça parte do patrimônio histórico e cultural do país, impedindo assim o seu desaparecimento.

Esse é o enredo – ou o causo – do filme Narradores de Javé (2001, direção de Eliane Caffé) rodado em Gameleiro da Lapa, interior da Bahia. O tema do filme é a diferença entre linguagem oral e linguagem escrita e a importância destas na identidade e na formação cultural de uma civilização. 

Como os moradores de Javé são em sua maioria analfabetos (com algumas exceções como o barbeiro e o dono do bar), toda a sua história está centrada na oralidade, nos causos e nos diálogos entre os moradores. Esta condição torna-se clara logo nos primeiros trinta minutos do filme quando Antonio Biá (José Dumont), para salvar seu emprego como carteiro – “Se ninguém recebe carta por que ter correio?”, indaga Souza (Matheus Nachtergaele) ao interromper temporariamente o orador do causo Zaqueu (Nélson Xavier) -, envia cartas a parentes e amigos de alguns moradores contando alguns casos e causos, inventando e florindo alguns fatos. Consegue manter seu emprego as custas da infâmia alheia. Como castigo a personagem é banida da aldeia voltando mais tarde a mando de Zaqueu, um tipo de chefe, mentor e informante dos aldeões que o impõe a condição de escrivão: Biá terá de escrever a história de Javé (o Livro Javérico) a fim de salvar toda a comunidade da catástrofe que se aproxima.

Por Zaqueu ser analfabeto, acredita que, registrando por escrito a história da aldeia, esta passará a compor o quadro sociocultural do país. Não basta apenas que Javé exista na oralidade é preciso documentá-la, registrá-la e imprimi-la em uma linguagem escrita em forma de prosa. É por isso que Zaqueu, ao ouvir dos “homens importantes” que a aldeia só não viria a ser inundada pelas águas caso ela tivesse sua história documentada, associa que, para algo ter uma importância científica, é preciso que esteja impressa no papel e com argumentos “científicos”. Quando lhe perguntam o que é científico Zaqueu não sabe responder exatamente (exploração da falta de letramento da personagem) o que o leva a “criar” uma resposta baseada no senso comum.

Como Javé está isolada das demais cidades, ela torna-se uma espécie de cidade-estado, com suas próprias leis e seus costumes (cena da peregrinação em que o engenheiro declara seu ateísmo – antítese, contraste entre civilização e tribalismo). Não há no filme, por exemplo, evidências de telefone e aparelhos de TV, o que intensifica o seu isolamento e o distanciamento de seus habitantes das demais partes civilizadas do estado da Bahia. Mas esse isolamento não é prejudicado até o momento do choque entre o científico (construção da barragem – alfabetização) e o sacerdotismo (a crença dos javenianos em sua própria cultura – analfabetização). O povo de Javé não vê outra solução a não ser no carteiro que possui as habilidades letradas e que, de “vilão” passa a ser o “herói” numa tentativa frustrada em salvar a aldeia do mal a que ela está destinada.

O contraste reflete, portanto o conflito entre o “saber ler” e o “não saber ler” e a inserção de uma nova tecnologia dentro de uma sociedade tribal e suas consequências: toda mudança repentina em um grupo social causa certo desnivelamento na organização dessa sociedade. Uma sociedade tecnologicamente mais evoluída tende a “engolir” uma sociedade menos evoluída. Todas as personagens que narram sua história possuem um grau de importância dentro dessa organização mesmo não sabendo ler e escrever. Enfim, a diferença entre linguagem oral e linguagem escrita não se restringe apenas a uma simples falta de conhecimento por parte do indivíduo, mas abrange toda uma cultura, toda uma sociedade, ou seja, a escrita é uma extensão de nossa fala, assim como a roda é uma extensão de nossos pés.

Bibliografia:

 

MCLUHAN, Marshall – Os meios de comunicação como extensões do homem, Ed. Cultrix, São Paulo

DeFLEUR,  Melvin e Sandra Ball-Rokeach – Teorias da comunicação de massa, Ed. Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro

PENTEADO, J. R. Whitaker – A técnica da comunicação humana, Ed. Livraria Pioneira Editora, São Paulo

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11 comentários sobre “Resenha crítica do filme Narradores de Javé

  1. Boa Noite, tudo bem? Eu sou professor e gostaria muito de poder mostrar este filme para os meus alunos, onde eu possa encontra? Obrigado

  2. OTIMO FILME….DEMONSTRA TAMBEM. QUE EM UM MESMO CONTEUDO..PODE SER INTERPRETADO DE VARIAS MANEIRAS…E MUITO IMPORTANTE ENTAO..ANALISAR DE UMA FORMA ABRANGENTE SEM PERDER A ESSENCIA DO CONTEUDO..

  3. adorei esse filme mostras a realidade do brasil que ainda tem lugares que a maioria das pessoas ainda são analfabetos esse filme é baseado em fatos reais muito lindo mesmo

  4. Este filme nos faz refletir que não só no Brasil,mas no mundo exister lugares com um grande número de analfabetos, (apesar que no Brasil a taxa redusil,mas ainda é grande o número de analfabetos) e pode se dizer que era uma cidade “isolada”,pois não hávia telefone,tv e etc. É uma absurdo que exista lugares assim ou piores!!!

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